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| Wilton Santana |
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A Tarefa da Pedagogia do Esporte na Infância à Luz do Paradigma da Complexidade
Wilton Carlos de Santana ¹ ²
Resumo
Este texto pretendeu inter-relacionar a pedagogia do esporte na infância e o paradigma da complexidade. Como recorte, estabeleceu-se a iniciação esportiva. Defenderam-se, basicamente, duas idéias: a primeira de que a iniciação esportiva é um fenômeno complexo, permeado de relações de força entre diferentes segmentos da sociedade que se afetam permanentemente e, por isso, exige um olhar dos pedagogos esportivos que não a reduza, como tem acontecido em alguns tipos de esporte no nosso país, ao paradigma vigente, baseado na especialização precoce, na busca do talento esportivo e na excessiva competitividade; a segunda idéia é de que ainda que se pensar complexamente demande um esforço considerável, supõe-se ser esse o princípio para desencadear um novo tratamento pedagógico para esse período. O texto pontuou, ainda, à luz do paradigma da complexidade, alguns princípios pedagógicos para o esporte na infância.
(1)
Universidade Norte do Paraná (UNOPAR) e Grupo de Estudos em Pedagogia do Esporte da Universidade Estadual de Campinas (GEPESP-UNICAMP).
(2)
Endereço do autor: Rua Pará, 1628, apto. 703. Londrina - Paraná, CEP: 86020-400. Telefone: (43) 3323-0105. E-mail: wilton@pedagogiadofutsal.com.br.
Palavras-chaves: pedagogia do esporte, iniciação esportiva, infância, complexidade.
Qual é a tarefa da pedagogia do esporte?
É, sem dúvida, um desafio responder essa pergunta. Bento, Garcia e Graça (1999, p.24) não a responderam especificamente, mas, habilmente, nos deixaram uma pista ao escrever que a pedagogia do esporte deve, antes de tudo, "[...] dar o Homem ao homem. Transmitindo-lhe toda a herança da cultura humana, criada pelo homem para nela se criar". Concordo com os autores: constitui-se tarefa da pedagogia do esporte pensar uma educação que realize no homem a sua humanidade. Isso serve para a pedagogia do esporte que se realiza nos diferentes cenários e com diferentes personagens (Paes, 2002): da iniciação esportiva ao alto nível, do esporte adaptado ao esporte para a 3a idade, do esporte escolar aos esportes de aventura.
Em particular, preocupo-me com a tarefa da pedagogia do esporte na infância, na iniciação esportiva. Acrescentaria, além do exposto pelos autores portugueses, uma outra premissa: a de que a pedagogia do esporte deve pensar uma educação que reconheça a complexidade dos fenômenos sociais. Penso que esse princípio facilitaria rastrear (e não definir!) uma tarefa para a pedagogia do esporte. Significa dizer, entre outras coisas, que a tarefa da pedagogia do esporte não pode ser concebida mediante uma maneira reducionista de se pensar a realidade, nesse caso, a da iniciação esportiva. Ao contrário disso, deve pensa-la considerando as relações de força presentes quando da interação entre os diferentes agentes (professores, pais, dirigentes esportivos, diretores escolares, mídia) envolvidos no processo de formação esportiva. Deparar-se com a iniciação esportiva é estar diante de algo absolutamente complexo que requer, por isso mesmo, a eleição de uma maneira complexa de se pensar.
Até aqui está tudo certo, mas nada resolvido. Isto porque pensar complexamente se constitui num desafio. Nas palavras de Morin (2001a, p.8) exigirá aprender a "[...] exercer um pensamento capaz de tratar o real, de dialogar e de negociar com ele". Ora, isso é absolutamente distinto do pensamento simplista que em geral se adota na iniciação de alguns tipos de esporte no nosso país (como por exemplo, o futsal) que, equivocadamente, insistem em reduzir o processo de formação esportiva à especialização precoce, à busca do talento esportivo e à reprodução do modelo de competição adotado no esporte profissional.
Para Freire (2002a, p.8) "[...] Somente a ruptura com paradigmas clássicos e o surgimento de outros que os substituam podem permitir (...) enxergar o mundo, talvez, como ele seja de fato". Por extensão, olhar para a iniciação esportiva não mais com certezas, não mais sob o paradigma vigente demandará um esforço considerável. Pelo menos por um motivo: o de que estamos acostumados a exercer um pensamento redutor! Muito da nossa herança cultural e científica centra-se numa visão dicotômica dos fenômenos, na disjunção, na redução do complexo as simples (Araújo, 2002). Dito isto, quem está preparado para tratar, dialogar e negociar com a realidade complexa da iniciação esportiva? Entretanto, suponho ser o paradigma da complexidade, que considera que o conjunto das partes é tecido junto (Morin, 2001b), o princípio e o método para desencadear uma nova pedagogia do esporte para esse período.
Morin (2001b, p.11) encaminhou uma missão em geral para o ensino que, a meu ver, serve a pedagogia do esporte "[...] transmitir não o mero saber, mas uma cultura que permita compreender nossa condição e nos ajude a viver, e que favoreça, ao mesmo tempo um modo de pensar aberto e livre".
Portanto, a pedagogia do esporte deve cultivar um modo de pensar complexo (como frisou Morin) que desencadeie um agir comprometido com a condição humana (como frisaram Bento, Garcia e Graça) da criança. Isso não exclui, por exemplo, competir na infância, mas inclui tratar pedagogicamente a competição a fim de que ela favoreça o desenvolvimento de quem compete. Freire (2002b) pontuou o fato com propriedade ao dizer que "[...] não vale a pena aprender se não for para viver melhor individualmente e em sociedade". Logo, aprender esporte, seja qual for e onde for (na escola, na escola especializada ou no clube), é bom quando os princípios (modos de se pensar) encaminham
métodos (modos de se agir) suficientemente adequados para que o aprendizado de dentro da quadra, do campo, da piscina, da pista, do tablado se generalize para a vida. Afinal, somos, em consonância com Lewis (1999, p.99), "Mentes pensantes, planejadoras e ativas".
Por conseguinte, penso que uma pedagogia do esporte que investe na idéia de uma educação comprometida com a complexidade deve tratar diferentemente a iniciação esportiva. Sugiro, minimante, alguns princípios pedagógicos:
a) Aceitar a competição, mas negociar outras formas de se competir;
b) Aceitar o talento esportivo, mas negociar outras formas de trata-lo;
c) Dialogar e negociar saberes com o sistema humano (Santana, 2001);
d) Buscar o equilíbrio entre o que é racional e o que é sensível (Santana, 2002);
e) Investir em aulas que reconheçam as diferenças entre os iguais;
f) Investir em métodos de ensino comprometidos com a sociabilização e a criatividade;
g) Investir numa pedagogia sedutora.
Considerações finais
Seria muita pretensão querer, em poucas linhas e com este tema, responder completamente à pergunta formulada no início deste texto. Mais aí vai mais uma dica: quem pensa complexamente não trabalha com a idéia de completude. Entretanto, algumas idéias ficaram expostas e sinalizam para uma pedagogia do esporte na infância que, à luz do paradigma da complexidade, trate a iniciação esportiva como um período relevante para se desenvolver as capacidades motoras, para aprender as habilidades técnicas e táticas, para aprender a cooperar, para construir autonomia, para aprender a gostar de esporte, para aprender uma cultura de lazer esportivo, para aprender a competir, a socializar conhecimentos, a dialogar, a socializar-se, a motivar-se, para se fomentar a auto-estima, isto é, para se equilibrar o que é racional e o que é sensível.
Portanto, a idéia simplista, tão presente em grande parte dos programas de iniciação esportiva e na mentalidade dos agentes que interagem nesse período, de que se deve especializar precocemente, se buscar exclusivamente os talentos e se competir excessivamente não deve ser mais sustentada.
Referências bibliográficas:
ARAÚJO, Ulisses Ferreira de (2002). A construção de escolas democráticas: histórias sobre complexidade, mudanças e resistências. São Paulo: Moderna.
BENTO, Jorge Olímpio, GARCIA, Rui, GRAÇA, Amândio (1999). Contextos da pedagogia do desporto. Lisboa: Livros Horizontes, 1999.
FREIRE, João Batista (2002a). O jogo entre o riso e o choro. Campinas, SP: Autores Associados.
FREIRE, João Batista (2002b). Inteligência Complexa. http://www.decorpointeiro.com.br. Acesso em 05 set.2002.
LEWIS, Michel (1999). Alterando o destino: porque o passado não prediz o futuro. São Paulo: Moderna e UNICAMP.
MORIN, Edgar (2001a). Introdução ao Pensamento Complexo. Lisboa: Instituto Piaget.
MORIN, Edgar (2001b). A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
PAES, Roberto Rodrigues (2002). "A pedagogia do esporte e os jogos coletivos". In: DE ROSE JUNIOR, Dante. Esporte e atividade física na infância e adolescência. Porto Alegre: Artmed.
SANTANA, Wilton Carlos de (2002). Iniciação esportiva e algumas evidências de complexidade.In: XIV SIMPÓSIO DE EDUCAÇÃO FÍSICA E DESPORTOS DO SUL DO BRASIL. Anais. Ponta Grossa, p.176-180.
SANTANA, Wilton Carlos de (2001). Futsal: metodologia da participação. 2a impressão. Londrina: Lido.
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