Entre o quadro e a quadra 190 artigo(s) cadastrado(s)
Voltar

Um modo inteligente de competir

Por entender que competir é educacional, inscrevi os meninos do projeto de extensão da UEL no campeonato Metropolitano de futsal em Londrina. Disputamos as categorias Sub-7 (FOTO) (divisão única) e Sub-9 (3a divisão). Também disputamos a Copa Kids (para quem não disputa o Metropolitano) nas categorias Sub-9 e Sub-11. Os jogos são aos sábados de manhã e de tarde.

Um dos fatores que me motivou a inscrevê-los na competição é a obrigatoriedade regulamentar de que todos os relacionados em súmula devem jogar. Esse tipo de condição era algo que ansiava há tempos. No meu primeiro livro, "Futsal: metodologia da participação", escrito faz 19 anos, defendi a ideia de que atravessar o ano no banco de reservas impedia o desenvolvimento dos iniciantes. Afirmei, naquele oportunidade, que "a criança para construir conhecimento, não somente do ponto de vista das particularidades do esporte, mas numa totalidade, tem que participar, viver concretamente o jogo". Graças ao senso crítico de alguns dirigentes e treinadores, vejo isso, hoje, materializado em algumas regiões do Brasil.



No nosso caso, o regulamento prevê que o jogo tenha 3 períodos de 10 minutos, nos quais se exige que todos joguem ao menos um período sem haver substituição. Outra exigência é a de que as equipes precisam ter no mínimo 9 jogadores (se tiverem menos jogam, mas o time perde os pontos!). Isso significa que se o treinador levar 9 jogadores e o seu goleiro for o mesmo em todos os períodos (e pode ser!), um quarteto jogará o 1o período e outro o 2o período; no 3o ficar-se-á livre para trocar entre esses jogadores. Se o treinador levar 10 jogadores, e o seu goleiro for o mesmo nos três períodos, no 3o período haverá a necessidade de um garoto jogar todo o tempo, enquanto os demais, que jogaram os períodos anteriores, podem revezar.

Avalio como um modo inteligente de competir. Por detrás disso há o seguinte recado: "Entendemos que todos precisam jogar para aprender". Os treinadores, a partir dessa regra, mobilizam-se ainda mais para que todas as crianças se desenvolvam, pois não há uma, mas duas ou três equipes titulares. Os pais, sobretudo os mais ansiosos, também se acalmam, pois sabem que o filho vai jogar.

Ah, isso não impede que haja goleadas. Claro! Há jogadores mais e menos experientes. Há equipes com dois quartetos equilibrados e outras com um apenas. As que têm dois levam vantagem. Dia desses, por exemplo, sofremos uma goleada por 12X2. Mas todos jogaram! Outro dia goleamos por 9X1. Mas todos jogaram! Quando perdemos, o 1o período foi 2x1; o 2o período foi 9x0 e o 3o foi 1x1. Quando vencemos, o 1o período foi 5x0, o 2o foi 1x1 e o 3o 4x0. Entendeu? O desequilíbrio vem da composição dos quartetos; das singularidades dos jogadores. Mas a pedagogia da competição garante a participação de todos.

Já me perguntaram se as crianças dos quartetos menos experientes não ficam chateadas de, vez ou outra, serem goleadas e o time perder e, portanto, se não seria melhor que ficassem no banco e saíssem vitoriosas. Sempre respondo que ficariam tristes, nesse caso, por não jogar. Ou seja, prefiro crianças insatisfeitas com o resultado do jogo do que frustradas por não jogar. Prefiro as crianças jogando e aprendendo, a partir de derrotas e vitórias, do que sentadas no banco de reservas. Prefiro que sintam o calor da coisa toda, que se emocionem, a serem espectadoras. Prefiro vê-las correndo riscos que as tirem do anonimato do que passarem despercebidas. E tem outra: educar é frustrar em alguma medida! Mas prefiro a "frustração" ativa à passiva.

Quando conto isso nos lugares em que ando, invariavelmente ouço que "isso é bom para os campeonatos locais, mas não emplacaria nos federados". Quando pergunto o motivo, ouço que "na federação é mais competitivo e, por isso, precisam jogar os melhores". Sempre discordo disso. Basta-me o argumento de que todos precisam se desenvolver e isso está atrelado ao jogar. Imagino, inclusive, que seria ainda mais interessante ver essa condição entre os federados, pois, com a seletividade imposta nesse âmbito, os jogos tenderiam a ser mais equilibrados.

Meu filho tem 7 anos. Ele é um dos melhores jogadores do seu time. Mas não vale mais do que seus colegas. Todos, nesse momento, precisam de oportunidades para aprender. A gente precisa entender isso ou rasgar nossos diplomas de professores de educação física e/ou esporte. 

Assinatura Wilton Santana
Enviar para amigo

Enviar

para um amigo

Adicionar um comentário

Comentar

adicionar comentário

Todos comentários

7 comentário(s) cadastrado(s)

Infelizmente em meu estado, no dia de hoje votaram contra esta mudança na regras das menores.

Josemar Ribeiro

Junior, ainda assim, tanto quanto você, penso que o sucesso entre os atletas vale mais do que a falta de sensibilidade do treinador. Abraço.

Wilton

Lucas, me parece um tema interessante. Espero que seu orientador também ache. Boa sorte!

Wilton

Washington, grato pelas palavras.

Wilton

Prof. Wilton, aqui no Tocantins, os jogos escolares também utiliza dessa regra para a categoria sub 14. Faz com que na fase de grupos, todos devem jogar. Isso reflete em equipes altamente "coletivas" e percebe-se muitos momentos de cooperação entre os "mais" e "menos" habilidosos. Um abraço, continuo apreciando seu trabalho.

Washington Gonçalves de França

Wilton, sempre acompanho seu site! Se tudo der certo, pretendo estudar este fenômeno - deixar no banco de reservas alguns e outros jogarem - em meu mestrado, pois quero apontar alguns indicativos do porquê disso ocorrer. Um abraço! Lucas!

Lucas Leonardo

Em Curitiba a 19 anos disputamos Copa Escolar de Futsal, com regulamento parecido, é um sucesso entre os atletas. Porém alguns Professores só oportunizam seus comandados ao jogo de fato por força do regulamento, é uma pena!

José Roulien Junior

Publicidade

70 Contextos P
Ensinando 2
DVD - Análises táticas

Parceiros

Enviar para um amigo

Remetente

Destinatário