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Selecionando o brinquedo certo para a aula de futsal

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

Vira e mexe algum aluno, de graduação ou não, defende que as "atividades lúdicas" deveriam permear o ensino do futsal na infância. Quando pergunto o motivo, diz "que as crianças não são adultas e, por isso, aprendem melhor brincando". É razoável. Não dá para discordar que crianças não são adultos (!) e, tampouco, que brincadeira tem mais a ver com infância do que com maturidade. Mas, por outro lado, quando pergunto por que as crianças aprendem melhor brincando, que é o argumento do alunado, em geral ouço "porque sim; porque são crianças". Essa resposta é frágil, porque nós, adultos, também aprendemos melhor brincando. Explico.

Para me ajudar, convido Lauro de Oliveira Lima, que muito me ajuda a compreender sobre ensinar e  aprender. No seu livro "Piaget para principiantes" ele ensina que afetividade é o interesse que se tem por algo e que esta (a afetividade) tem peso, sim, em se tratando de aprendizagem. Então afetividade, em Piaget, é sinônimo de interesse.

Por hora, anote aí: crianças aprendem melhor quando o brinquedo as envolve afetivamente ou, ainda, quando estão interessadas pelo brinquedo, pela brincadeira.

Primeira premissa pedagógica: trate de achar o brinquedo ou a brincadeira certa! O brinquedo certo é aquele que desperta, na criança, o interesse; aquele que a envolve afetivamente.

Bem, se o brinquedo (ou brincadeira ou atividade) certo é aquele que desperta o interesse da criança, ele deveria estar na aula.

Daqui para frente, chamarei a atenção para o fato de que o brinquedo certo, em despertando o interesse da criança, tem o poder de inaugurar uma relação afetiva, amorosa entre eles. Isso fará com que a criança tenha vontade de explorar a relação, dedicar-se ao que faz.

O fato é o seguinte: a relação da criança com o brinquedo é regulada pelo grau de satisfação que este último representa para aquela. Repito: a relação da criança com a brincadeira proposta pelo professor é regulada pelo grau de satisfação que esta representa para aquela.

Como saber que se acertou na escolha do brinquedo? Quando se verificar que a criança nutre pelo brinquedo um elevado grau de interesse. Como saber que houve um equívoco? Quando for pequeno o grau de interesse.

Imagine que o brinquedo ou a brincadeira não atraia o interesse da criança. E daí? E daí que não será inaugurada a tal relação afetiva que se pretende. Por sua vez, não desencadeará, na criança, a tal vontade de explorar o brinquedo. Hum! Problemas com o brinquedo... Sérios problemas.

Por conseguinte, por que seria importante que o brinquedo cativasse a criança ao ponto de esta querer explorá-lo? Simples: porque ele a mobiliza. Entenda como isso funciona e a sua eficácia pedagógica.

Inaugurada a relação afetiva entre a criança e o brinquedo, se inicia uma interação intensa: de um lado a criança, querendo dominá-lo, subjugá-lo, tentando, para tanto, organizar aquilo que se passa com os seus recursos (habilidades) próprios; por outro lado o brinquedo, com suas características e regras, exercendo pressão sobre a criança, resistindo aos seus caprichos; exigindo, amorosamente, que ela realize ajustes, desenvolva novos recursos, crie novos meios para interagir com ele.

Na prática, por exemplo, o brinquedo é mãe da rua. Cada criança com uma bola no pé, como no vídeo, dispostas cada uma “do seu lado da rua”, e outra, sem bola, na função de pegador dos que tentam atravessar para “o outro lado da rua”.

A criança com a bola no pé quer atravessar a rua com seus recursos próprios (domínio do brinquedo), mas o brinquedo exige que ela escolha o momento certo de passar, por onde passar e como passar (pressão do brinquedo). É nessa relação afetiva, isto é, lúdica, que na linguagem piagetiana, exigirá assimilação e acomodação, que se construirá o conhecimento de perceber, de antever, de decidir bem, de conduzir habilmente a bola.

Aí está: quanto mais intenso for o amor provocado pelo brinquedo mais sentido fará, para a criança, querer interagir com ele. No caso do meu filho de 3 anos, o brinquedo da vez é um patinete; no caso da minha filha de 7, a leitura; no caso da minha esposa, a supervisão da construção de uma casa; no meu caso, esta página.

Portanto, as atividades lúdicas deveriam permear o ensino do futsal porque despertam o interesse da criança, inaugurando uma relação afetiva intensa, que, por sua vez, desencadeará a estimada vontade de conhecer, que exigirá, do sujeito, realizar ajustes (adaptações), que culminará em conhecimento, isto é, em novo patamar de conhecimento.

Agora, para a gente não achar que resolveu o problema todo de ensinar e aprender, o que seria impossível, preste atenção à frase de Lauro: “Para que o interesse se mantenha é preciso que o objeto apresente algum grau ou tipo de resistência à assimilação, obrigando o assimilador (sujeito) a fazer acomodações (adaptações). A resistência aumenta a afetividade”. Entendeu?

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5 comentário(s) cadastrado(s)

Diego, grato pelas palavras. Somos todos eternos aprendizes da pedagogia do esporte. Saudações.

Wilton

WILTON parabéns pelo texto, utilizei muito o seu site quando trabalhei como professor colaborador na disciplina de handebol, a metodologia que você emprega é formidável. Grande abraço

Diego

Muito bom.Faço isso com meus alunos que estão iniciando no aprendizado do esporte.Percebo que eles aprendem melhor quando estão envolvidos afetivamente no brinquedo.Um abraço.

Johnyson Weyne

Boa pergunta, Zé Luis! O professor deveria provocar a tomada de consciência, auxiliando a criança, supostamente em conflito, a compreender o que faz, de modo que pudesse praticar melhor. Nessa direção, sugiro outro texto deste canal, intitulado "Metodologia do ensino: não basta praticar, é preciso pensar". Mas atenção: não acelere respostas! Intervenha no momento certo.

Wilton

òtimo texto. Dúvida: Ao professor além de "selecionar o brinquedo certo para a atividade", apresentar o objeto com graus de resistência a assimilação. Na fase das adaptações o mesmo deve e ou pode interferir e de que forma?

JOSÉ LUÍS SILVA

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