Vira e mexe algum aluno, de graduação ou não, defende que as "atividades lúdicas" deveriam permear o ensino do futsal na infância. Quando pergunto o motivo, diz "que as crianças não são adultas e, por isso, aprendem melhor brincando". É razoável. Não dá para discordar que crianças não são adultos (!) e, tampouco, que brincadeira tem mais a ver com infância do que com maturidade. Mas, por outro lado, quando pergunto por que as crianças aprendem melhor brincando, que é o argumento do alunado, em geral ouço "porque sim; porque são crianças". Essa resposta é frágil, porque nós, adultos, também aprendemos melhor brincando. Explico.
Para me ajudar, convido Lauro de Oliveira Lima, que muito me ajuda a compreender sobre ensinar e aprender. No seu livro "Piaget para principiantes" ele ensina que afetividade é o interesse que se tem por algo e que esta (a afetividade) tem peso, sim, em se tratando de aprendizagem. Então afetividade, em Piaget, é sinônimo de interesse.
Por hora, anote aí: crianças aprendem melhor quando o brinquedo as envolve afetivamente ou, ainda, quando estão interessadas pelo brinquedo, pela brincadeira.
Primeira premissa pedagógica: trate de achar o brinquedo ou a brincadeira certa! O brinquedo certo é aquele que desperta, na criança, o interesse; aquele que a envolve afetivamente.
Bem, se o brinquedo (ou brincadeira ou atividade) certo é aquele que desperta o interesse da criança, ele deveria estar na aula.
Daqui para frente, chamarei a atenção para o fato de que o brinquedo certo, em despertando o interesse da criança, tem o poder de inaugurar uma relação afetiva, amorosa entre eles. Isso fará com que a criança tenha vontade de explorar a relação, dedicar-se ao que faz.
O fato é o seguinte: a relação da criança com o brinquedo é regulada pelo grau de satisfação que este último representa para aquela. Repito: a relação da criança com a brincadeira proposta pelo professor é regulada pelo grau de satisfação que esta representa para aquela.
Como saber que se acertou na escolha do brinquedo? Quando se verificar que a criança nutre pelo brinquedo um elevado grau de interesse. Como saber que houve um equívoco? Quando for pequeno o grau de interesse.
Imagine que o brinquedo ou a brincadeira não atraia o interesse da criança. E daí? E daí que não será inaugurada a tal relação afetiva que se pretende. Por sua vez, não desencadeará, na criança, a tal vontade de explorar o brinquedo. Hum! Problemas com o brinquedo... Sérios problemas.
Por conseguinte, por que seria importante que o brinquedo cativasse a criança ao ponto de esta querer explorá-lo? Simples: porque ele a mobiliza. Entenda como isso funciona e a sua eficácia pedagógica.
Inaugurada a relação afetiva entre a criança e o brinquedo, se inicia uma interação intensa: de um lado a criança, querendo dominá-lo, subjugá-lo, tentando, para tanto, organizar aquilo que se passa com os seus recursos (habilidades) próprios; por outro lado o brinquedo, com suas características e regras, exercendo pressão sobre a criança, resistindo aos seus caprichos; exigindo, amorosamente, que ela realize ajustes, desenvolva novos recursos, crie novos meios para interagir com ele.
Na prática, por exemplo, o brinquedo é mãe da rua. Cada criança com uma bola no pé, como no vídeo, dispostas cada uma “do seu lado da rua”, e outra, sem bola, na função de pegador dos que tentam atravessar para “o outro lado da rua”.
A criança com a bola no pé quer atravessar a rua com seus recursos próprios (domínio do brinquedo), mas o brinquedo exige que ela escolha o momento certo de passar, por onde passar e como passar (pressão do brinquedo). É nessa relação afetiva, isto é, lúdica, que na linguagem piagetiana, exigirá assimilação e acomodação, que se construirá o conhecimento de perceber, de antever, de decidir bem, de conduzir habilmente a bola.
Aí está: quanto mais intenso for o amor provocado pelo brinquedo mais sentido fará, para a criança, querer interagir com ele. No caso do meu filho de 3 anos, o brinquedo da vez é um patinete; no caso da minha filha de 7, a leitura; no caso da minha esposa, a supervisão da construção de uma casa; no meu caso, esta página.
Portanto, as atividades lúdicas deveriam permear o ensino do futsal porque despertam o interesse da criança, inaugurando uma relação afetiva intensa, que, por sua vez, desencadeará a estimada vontade de conhecer, que exigirá, do sujeito, realizar ajustes (adaptações), que culminará em conhecimento, isto é, em novo patamar de conhecimento.
Agora, para a gente não achar que resolveu o problema todo de ensinar e aprender, o que seria impossível, preste atenção à frase de Lauro: “Para que o interesse se mantenha é preciso que o objeto apresente algum grau ou tipo de resistência à assimilação, obrigando o assimilador (sujeito) a fazer acomodações (adaptações). A resistência aumenta a afetividade”. Entendeu?