Quando eu era moleque e jogava bola na rua, dividir os times para se jogar era sempre a mesma coisa: dois escolhiam. Os outros ficavam sentados ou em pé, próximos, esperando serem chamados. Ser escolhido primeiro significava ter moral. Ficar para o final indicava que menos moral se tinha. O último então, pobrezinho, nunca era, de fato, escolhido. Era a sobra.
Se, por um lado, isso era cruel por demais para os que jogavam menos, por outro sempre garantia o equilíbrio das equipes, isto é, a homogeneidade da pelada. Tinham outros detalhes nessa prática. Por exemplo, ser o dono da bola, às vezes, dava o direito de escolher ou de ser escolhido primeiro, independentemente da “bola que se jogava”. Também tinham aqueles moleques que escolhiam primeiro o cara que “descia o braço” em todo mundo. Mas aí era mais por medo, o que, em alguns casos, era uma boa saída.
Bem, esse lance de dividir as equipes ainda significa muito, do ponto de vista moral, para a meninada. Infelizmente, há professores que ainda pedem para que dois escolham... Quando o professor é mais sensível, há uma tentativa de amenizar o efeito disso, colocando os mais fracos para escolher. Entretanto, dá na mesma: alguém será escolhido por último! A molecada não é boba. Sabe quem é quem.
Há também os professores que, para evitar a “coisa toda”, escolhem os times. Mas aí se perde uma ótima oportunidade de educar a moralidade dos alunos, isto é, como eles deveriam agir socialmente. Ora, quem é escolhido apenas obedece. Diferente de quem recebe do professor a incumbência de participar ativamente da organização das equipes.
Sou daqueles que não delegam para duas ou poucas crianças as escolhas dos times, ainda que para elas delegue a tarefa de organizar os times. Mas isso não acontece independentemente da idade, da experiência dessas. Sigo duas regras elementares para dividir os times:
(1ª) Se for criança até por volta dos 6-7,8 anos, eu mesmo divido. Componho equipes homogêneas, o que pode significar mais experientes entre si, menos experientes entre si, mais experientes misturados com menos experientes, enfim, tudo aquilo que gere certa ordem para que eles joguem. Não delego para os pequenos a divisão dos times porque eles, de modo geral, ainda, não conseguem se reunir, sair do centro, se colocar no lugar uns dos outros e emitir um julgamento ético, coerente.
(2ª) Se for criança de uns 9, 10 anos para cima, eu delego a responsabilidade. Libertando-se do egocentrismo, com a cooperação nascendo, as crianças podem dar conta dessa tarefa. De fato, eles se reúnem, saem do centro, dão aos outros o mesmo valor que se dão e, portanto, julgam de forma coerente, ética. Na prática, peço para as crianças dessas idades conversarem entre si, de modo a comporem equipes equilibradas. Mas não vale escolher! Tem de se associar, se juntar, o que exige que dialoguem e interajam. Isso não exclui que alguns liderem, mas não que eu tenha os escolhido. Quando, afinal, terminam de organizar as equipes, pergunto: “Está bom para se jogar ou alguém acha que precisa de mais algum ajuste?”. Isso, de modo geral, faz com que todos se entreolhem e tenham mais uma oportunidade de opinar.
O fato é que esse tipo de estratégia permite que todos aceitem ou recusem esse ou aquele convite, esse ou aquele grupo, enfim, todos são encorajados a participar e decidir.
Quando procedo assim quero, intencionalmente, provocar o diálogo, o conflito, a cooperação, as trocas, minimizando minha autoridade. Sei que ao permitir que tomem pequenas decisões, junto dos colegas, as educo para o governo próprio considerando a vida alheia.
Tem gente que acha que esse tipo de dinâmica é perda de tempo. Seria mais rápido e fácil, por exemplo, dividir as equipes, separá-los em titulares, reservas e reservas dos reservas. Mas eu discordo. Nem sempre o mais fácil e rápido é o que ensina a conviver, a tolerar, a reconhecer o outro, a educar para o autogoverno.
O fato é que eu entendo que aprender a cooperar vale o mesmo que aprender uma atitude tática. Logo, sempre vale a pena fazer da aula um ato político - política do cotidiano, claro. Ora, valores se constroem a partir da prática, da convivência. Os discursos são insuficientes para garantir o aprendizado de atitudes. Quem dialoga aprende a dialogar. Quem fica calado aprende a ficar calado. Como as crianças aprenderão a interagir se não interagirem?
Há outro jeito que procedo para dividir os times. Mas isso fica pra outra hora.