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O inusitado e a técnica

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Wilton Carlos de Santana

Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)

Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)

Em dezembro de 2012, Falcão fez um gol inusitado no Mineirinho, no que foi chamado de Fest Futsal. Inventou um gesto jamais visto para encobrir o goleiro e fazer o gol. Original. Foi chamado pela mídia de “gol antológico”. Foi, de fato, surpreendente. Além disso, foi eficaz, porque resultou em gol.

 

Bastou isso acontecer para que milhares de crianças e jovens imitassem o jogador. Se esse gesto for repetido muitas vezes ao ponto de ser aprimorado, transformar-se-á em algo possível de ser transmitido entre as pessoas. Não que eu acredite nisso. Mas é possível. Já imagino um professor passando as técnicas do gesto para o seu aluno: prenda a bola entre os pés, gire o corpo e a empurre para frente velozmente. Algum acadêmico analisará o gesto com alguma ferramenta biomecânica e publicará como artigo científico. Outro acadêmico o incluirá num livro entre os fundamentos do futsal.

Exageros à parte, saliento que Falcão não pensou em nada disso quando fez aquele gol. Apenas divertia-se. Tanto que sorriu demoradamente. Minha hipótese é a de que Leônidas fez o mesmo quando inventou a bicicleta, aprimorada e imortalizada por Pelé. O mesmo deve ter acontecido com Bernard quando criou o saque "jornada nas estrelas"; com Renan, quando criou o saque "viagem ao fundo do mar", algo que se transformou num fundamento que revolucionou o voleibol. E por que não estender esse raciocínio a todos os anônimos que, divertindo-se, inventaram dribles, passes, chutes, cabeceios.

Agora mesmo, longe dos holofotes, alguém pode estar inventando novos gestos, os quais, provavelmente, não serão conhecidos instantaneamente como aquele de Falcão, mas que poderão, quem sabe um dia, chegar a sê-los. Bastaria que as gerações passassem suas técnicas para frente: o avô para o filho, este para o neto, este para o bisneto...

Qual a lição que poderíamos tirar disso? Pelo menos duas: (1a) de que a técnica, na vida real, vem sempre depois da inventividade. Alguém fez algo inusitado e bem, a coisa pegou e se começou a passar adiante. Desse ponto de vista, muitos gestos novos ainda poderão ser inventados e incorporados à cultura dos esportes.

A segunda lição é a de que isso jamais deveria ser esquecido entre os que ensinam esportes “abertos”, como o futsal e o futebol, em que os gestos sofrem tantos constrangimentos do meio ambiente (colegas, adversários, bola). Logo, é preciso, desde cedo, aprender a surpreender! Quem surpreende leva vantage: nesse exemplo, o goleiro estava preparado para um chute frontal e forte, até mesmo para uma cavadinha, mas jamais para o que Falcão inventou.

Isso me leva a pensar que nas escolinhas é preciso permitir, primeiro, a criatividade e a adaptação dos iniciantes à incerteza do ambiente. Para tanto, os professores deveriam exercer menos controle sobre como as crianças fazem isso e aquilo; colocá-las sob desafios e problemas. Depois, por serem necessárias, viriam algumas dicas de como se fazer isso e aquilo, isto é, um conjunto de técnicas.

Reflita: será que crianças sob rigoroso controle desenvolveriam criatividade? Ambientes rígidos criariam jogadores flexíveis? Quem corre atrás das receitas técnicas aprenderia a responder a problemas inesperados? Quem aprende a repetir aprender a improvisar?

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