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| Wilton Santana |
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Princípios Pedagógicos para Ensinar Futsal
Dias desses refleti sobre o grande número de escolinhas de futsal espalhadas pelo Brasil. Ocorreu-me uma curiosidade: quais seriam os princípios pedagógicos (de ensino) que essas escolinhas adotam? Princípios são os valores e idéias que permeiam a prática dos professores. Note que esses princípios têm, querendo ou não, uma conotação social, pois são idéias de pessoas para pessoas. Cabe à pedagogia, entre outras coisas, elegê-los.
A meu ver, princípios antecedem metodologias de ensino. Ambos, princípios e metodologia pertencem à pedagogia. Mas a maneira de ensinar, o "como ensinar" deve vir depois que se sabe o "por que" ensinar. Em outras palavras, a metodologia deverá ter uma relação estreita (se inter-relacionar) com os princípios eleitos para ensinar. Deverá refleti-los.
Uma escolinha sem princípios pedagógicos poderá deixar a metodologia à deriva, sem rumo. Desse ponto de vista, os procedimentos de ensino poderão ser os do dia, os que derem na "veneta" do professor. Em se tratando do ensino do esporte na infância, essa desorientação é muito grave! Pois, se os procedimentos metodológicos forem incompatíveis, inadequados, poderão deixar seqüelas.
O professor que ensina futsal na infância deve formar atletas? Deve pensar em revelar talentos? Deve selecionar os melhores? Deve buscar títulos e recompensas? Quando você responde essas perguntas, acaba refletindo seus princípios... Logo, acabará elegendo metodologia compatível com o que pensa, não?
Penso que a infância não é lugar para revelar talentos, selecionar os melhores, tampouco colecionar títulos. Quando olho para uma criança, sinceramente, não vejo um futuro atleta. De outro lado, não descarto o surgimento de uma criança talentosa, mas não estou a procurá-la. Se surgir, não receberá privilégios. Recuso-me a selecionar crianças para fazer esporte. Na interface criança/seleção vêm a exclusão e a dispensa.
O mesmo acontece com títulos. Muitas vezes não se chega ao primeiro lugar nos eventos competitivos. Isso não quer dizer que quem competiu deixou de construir conhecimento técnico (habilidades) e humano (educacional).
Isto posto, acredito ser a infância o período de construir com as crianças atitudes, habilidades e desenvolver capacidades que possam contribuir para a sua atuação no mundo, não apenas no esporte. Entre essas atitudes, estão valores como participação, respeito mútuo, cooperação, autonomia... Entre as habilidades para facilitar o aprendizado das habilidades do futsal estão correr, saltar, girar, se equilibrar, transpor... Entre as habilidades de se jogar futsal figuram chutar, passar, conduzir, driblar... Entre as capacidades: ser veloz, resistir, se alongar, imprimir força...
Em última análise, o esporte na infância deverá, sobretudo, contrapor a idéia de ensinar apenas um conjunto de técnicas para os gestos desportivos e voltar-se para o desenvolvimento humano, para a evolução da consciência, para a introdução de uma cultura de lazer esportivo e à construção da cidadania. As iniciativas contrárias tendem a incorrer em especialização precoce.
A sugestão que me parece atender às demandas acima mencionadas é adotar os princípios sugeridos pelo professor João Batista Freire, em Pedagogia do Futebol (1998). São eles: ensinar futsal a todos, ensinar bem futsal, ensinar mais do que futsal e ensinar a criança a gostar de esporte. (O futsal indica uma colocação minha, pois Freire, em sua obra, cita o futebol.) Acredito que esses princípios possam legitimar a palavra "educacional".
Quando se ensina futsal a todos, significa dizer que, independentemente do nível de habilidade que a criança apresenta - fraco, bom, ótimo, excelente - o professor deverá dar a ela atenção e oportunidades irrestritas para que se desenvolva. Não há diagnóstico, tampouco seleção de talentos. Parte-se do pressuposto de que qualquer criança pode aprender futsal. Se não sabe, aprenderá o suficiente. Se souber pouco, aprenderá um pouco mais. Se souber, aprenderá ainda mais. Enfim, descarta-se a crença de que apenas os melhores, os abençoados, os que nasceram para jogar reúnem condições para progredir. Acredita-se que na relação professor/criança/espaço/objetos construir-se-á o conhecimento para se jogar futsal.
O próximo princípio sustenta a idéia de que não basta ensinar a todos, é preciso ensinar bem. Assim, para ensinar futsal, os professores deverão utilizar os meios, métodos, mais adequados. Deverão se preocupar em eleger para as suas aulas não somente os conteúdos adequados, como também os procedimentos. E aí o professor deverá respeitar as características da criança nos diferentes domínios: motor, intelectual, social, afetivo.
Outro princípio diz respeito a ensinar mais do que futsal. Trata-se de se preocupar com a condição humana da criança. A aula torna-se um espaço de interação social, um ato político. Desse ponto de vista, as crianças, nas interações com o professor e entre si, poderão construir atitudes e valores. Mas, observe que é o professor quem cria o ambiente pedagógico indicado para desenvolver atitudes. Por exemplo, um ambiente cooperativo, de trocas e acordos, tende a estimular a descentração e a conquista da autonomia. Já o que esperar se o professor criar um ambiente coercitivo (de repressões e imposições)?
O último princípio preconiza ensinar a gostar de esporte. Mas, como fazê-lo? O autor salienta a relevância de se adotar na infância aulas que veiculem o lúdico, as brincadeiras. Principalmente nos primeiros anos de prática, quando as crianças ingressam no esporte formal saídas de um contexto permeado de brincadeiras.
Quando se veicula o fenômeno esporte à educação, alguns associam o fato à idéia falsa de que as crianças não aprenderão futsal. Suponho que muitos professores não saibam fazer o futsal educacional, apenas sabem fazê-lo se associado ao treinamento, à especialização esportiva precoce, à obsessão em ganhar títulos. Nesse caso, o esporte não estaria sendo usado demagogicamente? Apenas para atender objetivos escusos? Como fica, eticamente, a preocupação com quem joga (a criança)?
Faça uma reflexão sobre o texto acima. Analise os princípios sugeridos pelo professor Freire. Identifique os princípios da sua escolinha ou adotados em suas equipes menores. Compare-os, reflita... |
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