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| Wilton Santana |
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Por uma Arbitragem Educativa... Além de Punitiva
Assisti a muitos jogos de futsal de crianças. Refiro-me a jogos oficiais. De campeonato mesmo. Esses onde, equivocadamente, os técnicos, dirigentes, organizadores, pais torcedores insistem na manutenção de um ritual semelhante ao que se encontra nos jogos de futsal das categorias maiores, entre jovens e adultos. Significa dizer que não há a menor preocupação do sistema em refutar possíveis atitudes encontradas no jogo do adulto que, penso, são irrelevantes no jogo da criança. De quais atitudes falo? Ouso enumerar algumas, mas certamente esquecerei de outras:
. Tipos de aquecimento;
. Formalidade de entrada em quadra e atitudes decorrentes;
. Rígidos sistemas de jogo;
. Excesso de manobras (jogadas) preestabelecidas;
. Cobrança exagerada;
. Vaia, xingamento, desclassificação, idolatria, anonimato;
. Comportamento de alguns árbitros...
Sobre esses últimos, quero falar um pouco mais.
Não há dúvida de que o árbitro deve punir. Punir o que se infringe das regras. O que se infringe de cada uma delas. Do ponto de vista pedagógico, o árbitro, necessariamente, não é quem ensina regras. Sua função é fazer com que sejam cumpridas. Observo, vez ou outra, árbitros ensinando a uma criança essa ou aquela regra, voltando o lance, dando mais uma chance. Há algum problema? Penso que sim e não. Não, porque demonstra uma certa empatia com a criança iniciante. Sim, porque são casos isolados: nem todos os árbitros comportam-se assim. Logo, não há um critério. A falta de um consenso poderá gerar uma série de problemas.
Voltando à pedagogia, quem deve ensinar o que vale ou não no jogo - as regras - é o professor. Se a criança não sabe regras é porque o professor não ensina. Não se pode esperar que o árbitro seja condescendente com possíveis infrações às regras. É fato: muitos técnicos querem que os árbitros, em jogos de crianças, sejam menos rigorosos com as regras. No entanto, esses mesmos técnicos são muito pouco flexíveis em suas cobranças no que se refere ao desempenho das crianças.
A narrativa acima, de cumprir as regras, não é adequada para a criança muito pequena. Penso que se aplica à criança de 9 a 11,12 anos. Por que? Porque nessa fase elas têm maior capacidade de concentração, importam-se com os resultados e, descentralizando-se, podem cooperar mais.
De uma maneira geral, crianças de 5, 6, 7 anos, no final da 1ª infância, não guardam um grande número de regras. Sequer controlam o placar. Ainda muito egocêntricas (e egocentrismo não tem relação com egoísmo, pois é inconsciente) jogam, segundo Piaget¹, "... cada qual à sua maneira". Por extensão, não deveriam jogar um jogo (como o de futsal) que encerra tantas regras. Jogo de futsal de criança pequena deveria ser diferente: mais lúdico e divertido. Sem o rigor e o ritual dos campeonatos oficiais. Mas isso é assunto para um outro texto.
Portanto, os árbitros devem cumprir o seu papel: punir as possíveis violações às regras, mesmo que sejam realizadas por crianças. Entretanto, além de punir, sugiro que se preocupem em educar. Para isso, precisam entender um pouco mais de criança. Também de educação. Quanta diferença poderá fazer um árbitro num jogo de crianças se puder entendê-las melhor!
A meu ver os dirigentes, os órgãos de direito, deveriam - já que são incompetentes quanto a questões metodológicas - classificar os árbitros: os de criança e os outros, de jovens e adultos. Penso que seria uma atitude inteligente. Os árbitros de criança seriam aqueles que, além de talentosos, estariam abertos ao estudo. Essa coisa de escalar árbitros que querem chegar à arbitragem da categoria principal iniciando na infância, para ganhar experiência, deixa muito a desejar. Para obterem uma boa avaliação - porque árbitro bom é aquele rigoroso e que passa pelo jogo despercebido - se comportam com muita rigidez: pouca conversa, pouca paciência, muito "apito", "dura" e indiferença. Resultado: apenas vigiam e punem.
Mas, como o árbitro poderia educar? Penso que caminharia para isso se estudasse mais, ouvisse mais, conversasse mais, acalmasse mais, se acalmasse, tocasse mais, sorrisse mais, abraçasse mais. A criança deve se encontrar com o árbitro. Gostar do árbitro. Mas, como fazê-lo se esse faz questão do isolamento e da indiferença? Criança precisa de atenção, de carinho. Não dá para tratar igual, do ponto de vista emocional, a jovem e adulto.
Quando observo os jogos infantis, penso nas coisas boas que deixamos de fazer.
Já não basta à criança, infelizmente e em alguns casos, conviver com o comportamento coercitivo e ignorante (no sentido de ignorar) de muitos pais, técnicos e dirigentes? Por isso creio na relevância da atuação do árbitro. Este não pode ir apitar e não se preocupar em tratar de educação. É seu dever também e não uma concessão. Árbitros sábios poderão interferir no ambiente. Investir nas relações.
- - -
1. No livro Seis Estudos de Psicologia (Forense Universitária, 1998), de Jean Piaget, os leitores poderão encontrar um referencial teórico perspicaz quando se fala do desenvolvimento social, intelectual e afetivo da criança. Neste texto, referi-me a reflexões encontradas nas páginas 40-3. |
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