"Então Jesus, movido de íntima compaixão tocou-lhes nos olhos, e logo viram; e eles o seguiram" (Mateus 20:34)
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Miséria Intelectual

Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
 
"Basta de um mundo, inclusive esportivo, construído na perspectiva analítica, de fragmentos, em que a parte é muito maior e mais importante que o todo". João Bosco da Silva

Imaginem a cena: reunião em uma escola entre o coordenador de Educação Física - aquele que representa os professores da área - e o departamento de Marketing. A pauta da reunião, de domínio prévio de todos, tratava, no geral, da promoção de um evento denominado Dia Recreativo. Em particular, da seleção dos possíveis jogos e brincadeiras sugeridos como atividades para as crianças da Educação Infantil à 4ª série do Ensino Fundamental. Por outra: no Dia Recreativo, o que a escola oferecerá para as crianças pequenas, de 5 a 10 anos de idade?

- Então professor, quais são as atividades que o senhor nos trouxe? Disse a senhorita responsável pelo evento.

- Bem, algumas. Anotem aí: estação um: lenço atrás; dois: cabra-cega ou cobra-cega... Enfim, algo parecido; três: mãe da rua; quatro: esconde-esconde; cinco: pega-pega; seis: amarelinha. Outras possíveis serão: futebol, bola queimada, betes...

- Legal. Mas, será que essas brincadeiras já não são muito praticadas por todos? Não seria interessante a proposição de outras? Ou então de variações na maneira de se jogar essas já tão conhecidas?

- Como?

- Olha, sei que não sou da Educação Física, mas lembro-me de em uma outra ocasião, num desses tipos de evento, que propuseram-nos variações na forma de se jogar jogos infantis e foi legal. Por exemplo, se for futebol, que seja jogado de mãos dadas, em pares mistos, com quatro metas. Se for betes, que seja com os pés...

- Ei, espera aí. Há um equívoco: não creio que essas brincadeiras que enumerei sejam praticadas por todos. Pelo menos não nas aulas de Educação Física da nossa escola.

- Não?

- Não. Antes de eu entrar, sim. Mas eu tratei de cortar as brincadeiras. Hoje, os meus professores trabalham sério em Educação Física. Não tem essa de brincar.

- Não? Então o que se ensina?

- Ensinamos às crianças habilidades motoras e desenvolvemos suas capacidades físicas.

- Professor, do que se trata?

- Eu explico: habilidade, por exemplo, é quando você leva as crianças a conduzirem uma bola até determinado local; lançar um arco para o alto e pegar; rolar no chão; saltar sobre um pé, depois sobre o outro... Já capacidade física tem relação com se alongar, desenvolver velocidade, fazer exercícios que exijam força, coordenação...

- Hum... Então as aulas são sempre assim?

- Não. Elas aprendem outras coisas: chutar com ambos os pés, arremessar com ambas as mãos, fazer abdominais, controlar a freqüência cardíaca...

- Professor, criança não tem que brincar? Jogar?

- Tem sim, mas não na aula de Educação Física. Elas já brincam na rua, no recreio. Se brincarem também nas aulas, como irão se sair nos testes?

- Testes?

- É. Nós fazemos periodicamente alguns testes: de flexibilidade, de resistência, de força, de agilidade, porcentagem de gordura...

- Nossa! Você mudou mesmo a Educação Física, hein?

- É o meu trabalho. Fui contratado para isso. Uma das vantagens dessa abordagem é que, num futuro próximo, nós poderemos mandar aos pais o desempenho dos seus filhos em Educação Física.

- Professor desculpe a insistência, mas as crianças gostam disso?

- Isso não é de gostar ou não. Por acaso elas gostam de matemática? De leitura? Se trabalharmos apenas com as coisas que elas gostam de fazer, vira bagunça. Não há aprendizado.

- Mas a "bagunça" não estaria relacionada ao prazer que as brincadeiras trazem? A ludicidade?

- Não sei. O que sei é que não dá para controlar quem brinca. Também faz barulho demais. Não leva a nada.

- Olha, perdoe-me, mas não está nada fácil ser criança mesmo: devem ficar quietas na sala de aula, dentro de casa, e até na aula de Educação Física! Que vigília sofrem! Com essa falta de liberdade, o que esperar delas quando se tornarem adultas?

- Bem, eu espero que façam atividade física.

- Sim, tudo bem. Mas, será que para aprender a realizar atividade física, vale a pena sacrificar, na infância, as brincadeiras, o prazer e a fantasia? Substituir o desejo da criança pelo do professor?

- Professora, mas para que fantasiar? Imaginar? Precisamos de conhecimentos mais objetivos. Conhecimentos que realmente farão diferença na vida de alguém. Temos um corpo, logo precisamos saber como discipliná-lo. Precisamos saber utilizá-lo adequadamente.

- Bem, de fantasiar e de imaginar eu entendo um pouco. Aliás, a minha profissão depende muito da minha capacidade de fantasiar. Se eu não tiver imaginação, como criar? Ter boas idéias? Logo, quanto mais as crianças forem estimuladas nessa direção, maior capacidade terão de serem criativas e imaginativas. Aliás, o que seria de nós, humanos, se não tivéssemos essa habilidade? Acho até mesmo que nos tornamos fortes devido à nossa imaginação. Por exemplo, alguém, um dia, imaginou voar. E isso acabou acontecendo, não? Se dependêssemos apenas da nossa motricidade, penso que sequer sobreviveríamos.

(Silêncio do professor).

- Outra coisa: os jogos, as brincadeiras, são realizados coletivamente. E isso é muito relevante. Entre pares, é possível construir atitudes como cooperação, respeito mútuo e autonomia. Na minha área mesmo, se as pessoas não souberem cooperar, não chegamos a acordos. Sem acordos, "patinamos". Crianças, brincando umas com as outras, têm a real oportunidade de construir essas atitudes, não?

- Atitudes? Que história é essa? Educação Física não tem relação com isso. Isso é coisa de teórico. De pedagogo. Eu não preparo crianças para tomar atitudes. Isso elas aprendem com os pais. Aliás, escola não tem tempo para isso. As disciplinas de sala de aula precisam preparar para o vestibular, a Educação Física para a saúde ou para o treinamento.

- Professor: concordo com a relevância de capacitar a criança para enfrentar um vestibular, adquirir habilidades, desenvolver capacidades... Afinal, são ferramentas necessárias para que ela amplie sua possibilidade de atuação no mundo, de interagir socialmente. Mas, a meu ver, a função primeira da escola é emancipar as pessoas. Envolvê-las num ambiente onde possam tomar atitudes e, a partir disso, aprender a cooperar, ter iniciativa, saber ouvir, falar o que pensam, respeitar pontos de vista diferentes dos seus... Enfim, conquistar autonomia. Talvez essas sejam as habilidades necessárias para melhor escolher o que se quer fazer e realizar vida afora.

- Agora é a senhora que tem que me desculpar. Vocês, de outras áreas, entendem muito pouco de criança. Menos ainda de Educação Física. Mas eu compreendo e respeito. Se vocês entendessem que...

- Bem, professor...Vamos deixar para lá. Isso realmente não é problema meu. Vamos voltar ao motivo dessa reunião: as atividades do evento. Então, vejamos. Estou plenamente de acordo com as atividades que você e os seus professores escolheram para o nosso Dia Recreativo. Apenas recordando: estação um: lenço atrás; dois: cabra-cega; três: bola queimada...
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Opiniões
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