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| Wilton Santana |
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As Categorias de Transição no Futsal e o Aprendizado Tático
Este breve texto tem o objetivo de apontar os motivos que me levam a crer que a adolescência é o período adequado para que os técnicos de futsal privilegiem o aprendizado tático. Logo, a narrativa é direcionada a profissionais que orientam equipes em categorias como o infantil, infanto e juvenil.
Permita-me acrescentar a esse período o conceito de transitoriedade e, por conseqüência, às categorias a denominação transitória. Mas, por que? Porque representam a passagem de um lugar para outro. Ou seja, uma vez deixada as categorias de iniciação, os jogadores transitam pelas categorias mencionadas rumo a principal.
Também são transitórias porque se encontram na adolescência e, por excelência, esse é um período de mudanças. Diferenciado.
Sobre adolescência
Certamente, nessa fase da vida das pessoas, em todos os aspectos, vemos conceitos e atitudes serem substituídos. São novas maneiras de se pensar, se relacionar, se comunicar e se movimentar. Esses indícios sinalizam para o amadurecimento do ser humano. Vem a afirmação da sua personalidade e a conseqüente inserção no mundo adulto (1).
Em se tratando de futsal, não é diferente. Não é porque está dentro de uma quadra que o adolescente deixará de ser adolescente. O ser humano é uno, indivisível. Logo, o jovem jogador - sofrendo alterações na sua maneira de pensar, se relacionar, se comunicar e se movimentar -, abre aos técnicos a possibilidade de construção de uma nova maneira de jogar. A exemplo do que acontece na vida fora de quadra, esses indícios sinalizam para um amadurecimento do jogador. Para a sua afirmação. Para a sua inserção no jogo de futsal bem jogado taticamente.
Por isso, penso ser este o período onde despontam os futuros jogadores de futsal de rendimento. É na adolescência, repito, no decorrer das categorias transitórias, que os jovens poderão, por livre iniciativa, traçar objetivos e se submeterem às exigências de performance. Antes disso, na infância, seria inadequado pensar dessa forma. É precoce.
Evidentemente que, apesar de transitórias, as mudanças que ocorrem na maneira de ser do adolescente implicam, muitas vezes, em situações pertubadoras (2). Por conseguinte, os técnicos têm que se preparar para lidar com isso: não dá para tratar adolescente como criança, tampouco como adulto.
Sobre fundamentos táticos
Para facilitar o entendimento do porquê a adolescência é o período adequado para desenvolver o aprendizado tático e a compreensão do jogo de futsal propriamente dito, procede esclarecer alguns termos como sistemas, manobras, padrão de jogo e contra ataque. A meu ver, são esses os fundamentos táticos do jogo de futsal. Por conseqüência, constituem a base de conhecimento para todas as decorrências táticas possíveis de serem criadas e aplicadas. Quem pensa taticamente o faz sobre os fundamentos acima mencionados.
Por sua vez, a tática é o elemento inteligente do jogo. Transita entre dois pólos: ofensivo e defensivo. Congrega os seguintes fundamentos:
Sistemas - posicionamentos adequados para defender e atacar;
Manobras - movimentações ofensivas e defensivas com a bola em movimento (de quadra) e parada;
Padrão de jogo - movimentações repetitivas para manter a posse de bola e atacar;
Contra ataque - um fundamento que tem uma relação estreita com a proposta defensiva da equipe. É, em parte, determinado por dois fatores: onde (em que linha) e como (de que forma) a equipe marca.
A meu ver, essa é a base de conhecimento que todo técnico de futsal deve dominar. A partir deste conhecimento, será possível construir outros. Por extensão, é também a base que todo jogador de futsal deverá construir para chegar a outros níveis de desenvolvimento. A inter-relação destes fundamentos compõe o jogo de futsal taticamente bem jogado: ataque, defesa e contra-ataque.
Ensinar os conceitos que estão presentes em cada um dos fundamentos táticos acima descritos apenas na adolescência seria um equívoco. Perderíamos muito tempo, principalmente quando se sabe que as crianças iniciam no futsal por volta dos 7,8 anos de idade. Com metodologia adequada, alguns conceitos poderão ser construídos. Mas isso é assunto para outro texto.
Sobre o aprendizado tático e as possíveis condutas pedagógicas
Muito do que se pode fazer taticamente a partir da adolescência deve-se à nova maneira de pensar dos jogadores. Pois, ao contrário do que ocorre na 2a. Infância (7-12 anos), quando a criança opera no concreto (3), ou seja, necessita da realidade observável para realizar operações intelectuais, o adolescente opera sobre hipóteses, no plano das idéias. O adolescente, destacando-se do real, é capaz de construir suas próprias reflexões e teorias.
Essa nova maneira de pensar sinaliza para novas perspectivas táticas para o jogador e para o técnico de futsal. Significa que serão possíveis algumas novas condutas pedagógicas. Entre outras, a de construir questões táticas novas e mais elaboradas. Por que? Ora, se a tática é o elemento inteligente do jogo, ela acontece, num primeiro momento, no plano mental, no campo das idéias. Quem pensa taticamente, o faz primeiro no plano das idéias. É nesse plano, e no estudo do adversário, que os técnicos criam hipóteses para solucionar os problemas de suas equipes e levá-las ao triunfo. Os adolescentes têm essa capacidade de estabelecer hipóteses e deduzir. Logo, têm condições de se desenvolver para triunfar taticamente sobre o adversário.
Na tática vivemos o jogo no plano mental. O adolescente, pela sua nova maneira de pensar, é capaz de viver o jogo sem ainda tê-lo jogado. Significa dizer que os técnicos podem se utilizar, além de exemplos concretos (demonstrações práticas), de enunciados verbais (teoria) para exporem seus conceitos, idéias, suposições. Esses enunciados somente poderão ser compreendidos por alguém que seja capaz de vivê-los no plano mental, associando-os com outras idéias e construindo, a partir desta compreensão, suas próprias teorias e suposições.
O técnico de futsal poderá utilizar rodas de conversa que objetivem reflexões sobre o comportamento tático do grupo (a exemplo do que ocorre nos pedidos de tempo técnico), análise em vídeo de jogos da sua e de outras equipes. Em se tratando da adolescência, uma fase reflexiva, tornam-se condutas pedagógicas indicadas.
Significa que a teoria ganha espaço, inserindo-se definitivamente na interação técnico e atleta. Deste modo, a linguagem abstrata e os enunciados verbais são possíveis de compreensão. O gráfico abaixo ilustra esse novo comportamento.
Quanto maior a faixa etária maior a teoria (4)
Sobre decorrências táticas
Desse ponto de vista, possíveis decorrências táticas tornam-se possíveis de serem abordadas, construídas e compreendidas. Entre outras, e em linhas gerais:
a) Variações defensivas (linhas de defesa 1, 2 e 3);
b) Trocas de marcação;
c) Marcação de retorno;
d) Marcação com a bola parada (falta, lateral, canto);
e) Quebra de marcação;
f) Padrão de jogo;
g) Ataque seletivo;
h) Variações de manobras com a bola parada (saídas de meta, tiro de saída, canto, lateral, falta);
i) Manobras com a bola em jogo;
j) Jogar sem bola;
k) Entrar na bola...
Além da nova maneira de pensar, que foi a preocupação central desse texto e que nos permitiu discorrer sobre o tema, outros fatores corroborarão para avanços no plano tático: o desempenho nas habilidades técnicas, o desenvolvimento das capacidades físicas e um maior equilíbrio emocional. Efetivamente, esses fatores - a qualidade técnica, física e emocional -, implicarão na qualidade tática.
Em outras palavras: além do aspecto intelectual, possuir um melhor passe, chute, mais força, velocidade, maior controle da ansiedade, são indícios de que o jogador pode progredir taticamente e de que o técnico deve ampliar as possibilidades táticas da sua equipe.
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(1), (2) e (3). No livro Seis Estudos de Psicologia (Forense Universitária, 1998), de Jean Piaget, os leitores poderão encontrar um referencial teórico perspicaz quando se fala do desenvolvimento social, intelectual e afetivo do adolescente. Neste texto, referi-me às reflexões encontradas nas páginas 61, 57-65, 58.
(4). Outro livro que trata do assunto, mas com preocupações pedagógicas, é Pedagogia do Futebol (Midiograf, 1998), de João Batista Freire (p.123).
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