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| Wilton Santana |
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Atividades Competitivas
Dia desses, numa das minhas aulas na Universidade, surgiu uma discussão sobre o tema competição. Aliás, este é um tema recorrente quando se fala sobre o ensino do futsal na infância. Em particular, tratávamos naquela aula de uma possível classificação das atividades motoras para ensinar as habilidades específicas (passe, chute, domínio, condução...). Dentre as subdivisões, comentávamos sobre as competitivas: aquelas onde as crianças aprendem mais sobre as habilidades participando de competições. Necessariamente, esse tipo de atividade deve apontar um vencedor ou vencedores.
A discussão aconteceu quando perguntei o que achavam da atitude pedagógica de selecionar atividades competitivas para ensinar as habilidades específicas. Lembro-me de algumas frases enunciadas pelos alunos: "Eu selecionaria. Quem não aprende a vencer desde cedo, não vencerá na vida"; "Acho ruim. A criança que perde se sentirá frustrada"; "É positivo, porque ensina a vencer. E negativo, porque ensina a perder"; "Eu não colocaria. Imagine uma atividade com dez crianças: para que uma vença, outras nove têm que perder".
As idéias acima se revelam antagônicas, como são a vitória e a derrota. Nenhuma novidade: pensa-se, invariavelmente, que competir se resume a ganhar ou perder. Vencer é bom, capacita e integra. Perder é ruim, enfraquece e segrega. Valores que permeiam o competir, como participação, alegria, entrega, cooperação e o próprio aprendizado, raramente são considerados relevantes.
Observe que não estávamos falando da competição presente em campeonatos e torneios. Falávamos, tão somente, da criança participar de atividades competitivas para aprender as habilidades do futsal.
Penso que o professor de futsal não tem o poder sobre o fenômeno competição. As crianças competem com ou sem a intervenção do professor ("Vamos ver quem chega primeiro?)". O que se pode discutir, e talvez isso seja relevante, é o tratamento que os professores e os dirigentes dão à competição.
Do ponto de vista metodológico, se propusermos atividades competitivas para ensinar habilidades como chute, condução, passe e outras, certamente teremos o interesse das crianças. Competir é inegavelmente atraente. Entretanto, competir se manifesta diferentemente dependendo da faixa etária: crianças pequenas, de cinco, seis, sete anos têm pouco interesse (ou capacidade) em administrar a competição. É comum não saberem, por exemplo, quem está ganhando. Estão atrás mesmo é de diversão (1). Já crianças maiores, de 8 a 12 anos, administram os resultados. Por extensão, preocupam-se com o êxito e importam-se em vencer.
Se considerarmos que grande parte das atividades competitivas é na realidade composta de jogos populares, competir tornou-se um recurso pedagógico interessante: a ludicidade dos jogos conhecidos pode ser uma ponte para que o professor ensine coisas novas. De outro lado, como já disse Jean Chateau (1987), quando joga a criança tem a oportunidade de afirmar sua personalidade (2). A criança quando joga se mostra como é verdadeiramente. Logo, é uma boa oportunidade para se trabalhar com temas transversais como, por exemplo, a ética e a moralidade.
Outro aspecto na metodologia que considero relevante é o de obedecer a uma regra básica: quanto menor a criança menor deve ser a proposição de atividades competitivas para ensinar as habilidades. Por que? Porque, em geral, essas atividades implicam em realizar as habilidades - condução, passe, chute e outras - com pressa. A atitude de ser apressado contrapõe-se ao objetivo do momento, que é o de construir conhecimento de como, por exemplo, conduzir, passar, chutar melhor. A pressa faz com que a criança faça o gesto esportivo de qualquer jeito. Desse ponto de vista, as brincadeiras - onde ninguém perde ou ganha - e as tarefas - onde se repetem uma quantidade generosa de gestos esportivos - são mais indicadas.
Sobre as opiniões dos meus alunos (e de certa forma de grande parte dos adultos) faço algumas considerações:
. A competição não é boa ou ruim em si mesma, depende do que se fizer dela;
. Se negarmos à criança competir - que sem dúvida implica num ato de cooperação -, perderemos a oportunidade educacional de provocar sobre a competição e suas nuances - vitória, derrota, iniciar jogando, iniciar como opção, ceder o lugar, respeitar as regras, ao outro - sinceras reflexões que têm o poder de contribuir na construção da autonomia moral (3);
. A competição não é muito diferente da vida, pelo menos em dois aspectos: ambas são efêmeras e ninguém vence ou perde sempre;
. Quando se pensa que em uma atividade com dez alunos, nove tem que perder para que um vença, pense na contrapartida: foi possível ser o primeiro, porque outros nove participaram. Compete-se com e não contra alguém.
- - -
(1). Consultar mais sobre o assunto em Seis Estudos de Psicologia, de Jean Piaget, pp.41-2.
(2). Na introdução da sua obra O Jogo e a Criança, Jean Chateau (pp.13-33) transcorre mais sobre o assunto.
(3). Para Vinha (2000, pp.85-6) "... as raízes da autonomia moral (governar-se a si mesma) encontram-se nas relações democráticas, esse ambiente deve provocar trocas sociais entre pares".
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