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Condutas Motoras

Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
 
"O que equivale a dizer que não se pode falar de conduta motora sem a situarmos na complexidade totalizante... que é a 'realidade humana' ". Manuel Sérgio

Numa dessas quartas e sextas-feiras em que dou aula para crianças pequenas, de sete, oito anos, invariavelmente aprendo coisas novas. Dia desses passei por uma experiência diferente. Permita-me compartilha-la.

Vejamos. Na segunda parte da aula do nosso projeto de extensão de futsal na Universidade, a ênfase recai em atividades que contribuam para o aprendizado de habilidades básicas: locomoção (correr, saltar, subir...), manipulação (lançar, pegar, controlar...) e estabilidade (equilibrar-se, ficar em pé, sentado, imóvel...). Em geral, grande parte das crianças nessa faixa etária, devido as suas experiências motoras anteriores, já tem essas noções construídas. Logo, é preciso que a escola de esporte afirme-as. Outras crianças, pelo mesmo motivo, não têm essas noções construídas. Nesse caso, é necessário construí-las. Essa parte da aula é pautada pela diversificação de atividades, movimentos, objetos e espaços físicos.

Apenas para esclarecer - já que pretendo explicar melhor num outro texto-, é relevante construir habilidades básicas porque essas servirão de suporte quando do aprendizado das habilidades específicas (passe, chute, condução...).

Nesse dia em particular o tema foi estabilidade. Propusemos - eu e o Edu, que é o estagiário permanente - algumas tarefas às crianças. A primeira tarefa consistiu em se equilibrar sobre uma bola de futsal. A orientação foi a de que cumprissem a tarefa individualmente, mas poderia pedir auxílio para o professor e/ou para o colega. Num segundo momento, a proposição foi a de que fizessem a tarefa em duplas, com ou sem o auxílio do professor.

A segunda tarefa consistiu em:

a) Passar de diferentes formas sobre um banco sueco. Apenas uma regra básica: deveriam estar em pé. Em geral, elas passam caminhando, correndo, de costas, sobre um pé e de outras formas. Aproveitamos a oportunidade para lançar desafios: quem sugere uma forma diferente de passar sobre o banco? Quem consegue fazer o que o Thiago fez? Quem consegue passar bem devagar? Quem consegue passar bem rápido?

b) Caminhar sobre uma mureta;

c) Caminhar sobre a parte lateral de um banco sueco deitado.

Nessa segunda tarefa, a "b" é mais difícil do que a "a". De outro lado, a "c" é mais difícil ainda que as anteriores, pois o espaço para caminhar é cada vez mais estreito. Isso pôde ser percebido, pois algumas crianças conseguiram e outras não completar a tarefa. Acrescentei a essa atividade o fato de que "imaginassem que atravessavam uma ponte bem estreita e de que, lá embaixo, havia um rio de correnteza forte".

À atividade "c" seguiram-se alguns comentários meus e das crianças de que me lembro: "Willian vai lá. Você consegue"; "Marcos, não há problema. Vá de novo, pois você já foi até a metade"; "Danilo, por que você acha que não conseguiu?"; "Rafael, fale para o Danilo o que você faz para atravessar a ponte"; "Tio, eu não vou conseguir"; "Você viu professor? Consegui atravessar"; "Tio, o Danilo quer passar muito rápido".

O fato é que, em meio a esse clima, também me aventurei a caminhar sobre a lateral do banco deitado. Não para servir como modelo, pois não falei nada. Apenas entrei na fila. O objetivo era compartilhar o problema de todos como um deles. Sempre faço esse tipo de coisa. Então, pus-me a fazer a tarefa. Como sou alto, passei sozinho pelo banco. Fui bem até perto do final, onde perdi o equilíbrio e cai. Lá fui eu para o chão. Eu no chão e eles me olhando. Alguém disse: "O que aconteceu?". Outro, surpreso, comentou: "Ele caiu!". Outro: "Professor, machucou?" Eu comentei: "Não foi nada. Eu não consegui chegar ao final porque perdi o equilíbrio e cai". Foi aí que um garoto comentou: "Professor, tenta de novo". No que foi seguido por outros: "É. Tenta de novo". E eu falei: "Tudo bem".

E lá fui eu, com o traseiro e o pulso doendo, caminhar novamente. Dessa vez consegui equilibrar-me até o final. Sem queda. Confesso que não foi nada fácil. No meio do caminho hesitei. Temi. Mas fui até o final. Afinal, havia aceitado a proposta de tentar de novo, não? Esperávamos (eu muito mais do que elas), de certa forma, que eu conseguisse. De outro lado, estou convicto de que, se caísse, convidar-me-iam a tentar novamente.

Confesso que essa experiência foi muito mais reveladora do que constrangedora. Cá pra nós, quando cair não é constrangedor? Mas, percebam as atitudes que as crianças tiveram quando da minha queda: preocuparam-se e incentivaram-me a tentar novamente. Nenhuma crítica. Nenhum deboche. Nada de mais. A "atitude pedagógica" delas foi a de respeitar a minha limitação e incentivar-me a ir de novo. Cabe uma indagação: quantas vezes nós, professores, fazemos exatamente o contrário? Supervalorizamos o erro, criticamos ou, ainda, somos indiferentes.

Isso me faz refletir sobre algumas coisas nesse difícil desafio de ensinar e aprender. Certamente, é tarefa do professor planejar a aula, as atividades, o conteúdo, preocupar-se com as especificidades da área. É tarefa do professor educar as habilidades. Mas, ao educar essas, vai-se além, educa-se a motricidade humana (1). Portanto, o educar deve ser entendido e estendido também para atitudes e sentimentos. Tudo tem relação com tudo: o caminhar sobre um banco e o que se sente (medo, alegria, satisfação, frustração) nesse caminhar; o cair, o levantar, o comentar e o tentar de novo.

Penso que os professores, querendo ou não, ensinam mais do que habilidades e desenvolvem mais do que capacidades. Necessária é a atitude pedagógica de estudar para saber ensinar mais do que esses conhecimentos específicos. Não deixar apenas por conta do bom senso a educação das atitudes. Não deixar apenas por conta da moral de cada um.

Há mais do que gestos desportivos em uma aula de esporte. As pessoas denunciam essa complexidade. As crianças parecem saber disso antes e melhor do que os professores.

- - -
(1) Sugiro a leitura de "Educação Física ou Ciência da Motricidade Humana?", do professor Manuel Sérgio, Editora Papirus.
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Opiniões
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