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Metodologia do Ensino: Não Basta Praticar, É Preciso Pensar¹

Wilton Carlos de Santana
Docente do Curso de Esporte da UEL (PR)
Doutor em Educação Física - UNICAMP (SP)
 
Ação é o que mais vemos nas aulas de futsal. Evidente: será participando de atividades motoras adequadas e bem orientadas que as crianças aprenderão as habilidades específicas (passe, chute, domínio...) exigidas no jogo de futsal. É por aí mesmo - praticando e executando - que as crianças aprenderão a jogar bem futsal.

Reflexão, ir mais fundo no pensamento, é uma atividade também, mas de caráter intelectual. Está mais ligada à capacidade de pensar, melhor ainda, de pensar sobre o que se fez, sobre o que se irá fazer.

Vejamos, haveria alguma vantagem em levar a criança a pensar sobre o que acabou de fazer e sobre o que vai fazer na aula? Sim. Qual seria? Levá-la a fazer melhor. Em outras palavras: o professor que leva a criança a refletir sobre a prática (ação) que fez e que vai fazer está contribuindo para que ela tenha êxito. Por que? Porque ela, refletindo, tomará consciência. Consciente do que fez, poderá ponderar e fazer melhor.

A criança, nas aulas de futsal, deve pensar sobre o que fez ou fará. O professor, respeitando as características da faixa etária, deve provocar essa situação. Mas como?

Imaginem um exercício: duas crianças envolvidas numa tarefa para aprender o drible e o desarme. A que está com posse de bola tem o objetivo de passar pela outra, em seguida chutando contra a meta. A que está sem bola tem o objetivo de desarmar, chutando defensivamente ou recuperando a posse de bola. Uma atividade simples, muito desenvolvida em aulas de futsal na iniciação.

Consideremos as seguintes hipóteses:

1º. A criança que tenta o drible não consegue êxito na atividade. Identificamos que é porque ela dribla lançando a bola muito longe e aí não dá tempo de encontra-la, pois o goleiro sai do gol e chega primeiro na bola;

2º. Sob a mesma atividade, em outra dupla, identificamos que a criança que tenta o desarme não obtêm êxito. Identificamos que é porque ela se aproxima do adversário muito rapidamente e, ao abordá-lo, mantém-se com as pernas estendidas (centro de gravidade longe do solo), sendo, por isso, facilmente desequilibrada.

Como provocar nas crianças que aprendem, nesse caso, a driblar e a desarmar, uma atitude reflexiva? Faz-se necessário eleger estratégias de ensino que levem à reflexão. Sugiro três: perguntas, sugestões e explicações.

a) Perguntas - pois levam à verbalização. E verbalizar (falar) sobre o que fez ou fará levará a criança a tomar consciência do que executou. Ou seja, falando sobre o que fez, ela poderá rever no plano das idéias a sua ação de driblar e desarmar (observar-se mentalmente) e reconsiderá-la sob vários aspectos (O que fiz de errado? O que posso fazer de diferente?...).

b)Sugestões - pois, desde que sejam boas, podem indicar novos caminhos de se fazer a mesma coisa.

c) Explicações - pois podem ser úteis para revermos o acontecido e, a partir daí, apresentarmos um novo desempenho.

Por exemplo, nas hipóteses acima, o professor poderia perguntar / sugerir / explicar às crianças:

- "Fala" pra mim "como você driblou?... tentou desarmar?".
- "Por que você acha que não está conseguindo completar o drible?... fazer o desarme?".
- "O que você acha que poderia fazer para conseguir driblar?... desarmar?".
- "O que você acha de tentar outro tipo de drible?... se aproximar mais devagar para desarmar?".
- "Observe o Carlinhos driblar (desarmar). Por que ele consegue? Qual a diferença entre o drible (desarme) dele e o seu?".
- "Gostaria de explicar que o seu drible está muito longo. O que você entende por isso? O que você poderia fazer no próximo de diferente?".
- "Será que não seria melhor tentar um drible mais curto?... flexionar as pernas para desarmar?".

Suponho que existam outras sugestões de estratégias para provocar no outro uma atitude reflexiva. Nos exemplos citados, há uma interação entre professor e criança, ou seja, o professor pergunta, sugere e explica. A criança observa, pensa verbaliza. Poderia ser de outra forma? Acredito que sim. Por exemplo, poderíamos provocar uma atitude reflexiva interagindo criança com criança e também com demonstrações: "Sugiro que você explique e demonstre para o seu colega como você faz para conseguir sucesso no drible, no desarme".

Suponho que a estratégia de demonstrar como executar as habilidades é a mais comum entre professores. Entretanto, sugiro que a sua utilização se associe às estratégias anteriormente sugeridas a fim de que se evite cair numa busca de modelos de se fazer isso e aquilo e corra-se o risco de estereotipar movimentos.

O interessante é perceber que quem pensa sobre o que fez ou fará poderá fazer melhor. Não basta praticar é preciso pensar.

As atitudes reflexivas devem ser provocadas sempre, tanto sobre as habilidades específicas (fundamentos) quanto sobre as particularidades táticas. Obedeça, entretanto, uma regra básica: quanto menor a criança menor a teoria.

Agora que sabemos como provocar uma atitude reflexiva, pergunto: quando provocá-la? Quais momentos da aula são privilegiados para provocar a reflexão? Reflita sobre isso...

- - -
(1) Esse texto foi veiculado em setembro de 2000 na ferrettifutsal.com.br com o título "Não Basta Praticar. É Preciso Pensar." Resolvi disponibiliza-lo novamente, mas optei em alterar o seu nome por conta de algumas atualizações.
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