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| Wilton Santana |
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Jogo Livre: a Herança do Jogador de Futsal Bem Treinado
Não é difícil encontrar na literatura(1) definições e tipos de padrão de jogo. Em linhas gerais, defende-se a idéia de que padronizando os deslocamentos dos jogadores por meio de movimentações repetitivas, tornar-se-á possível manter a posse de bola, induzir o adversário ao erro e facilitar as ações ofensivas da equipe. Em outras palavras: investe-se na idéia de que se todos da equipe fizerem a mesma coisa (repetirem o combinado) conseguir-se-á a manutenção da bola e o jogo de ataque.
Há indícios de que essa maneira de pensar não encontra reciprocidade no futsal moderno, pelo menos entre as equipes que disputam a Liga Nacional. Nesse nível, o jogo está muito mais para "livre" do que para padronizado. No lugar dos padrões de jogo - redondo, de meio, pela ala, 4 em linha, lado contrário - vê-se um jogo(2) essencialmente veloz, com movimentações constantes com e sem bola, mudanças contínuas de posse de bola e de muito contato físico. Necessariamente, não há obediência a um determinado padrão de jogo. Há uma maneira de se jogar, que aqui estou chamando de "livre". No "jogo livre" encontramos movimentações de ataque organizadas e que pertencem a determinados padrões de jogo: troca entre o ala e o pivô, aproximação, tabela, paralela, bolas de espaço, diagonal, ultrapassagem por trás com a possibilidade de uma pisada, troca entre o armador e o pivô, liberação de espaço, fugida, bolas de tempo. Portanto, não se trata de entrar na quadra e fazer o que se quer. Não é bagunça, tampouco pelada. Jogar "livre" implica, sobretudo, em jogar organizado.
Dentre as características do jogo acima citadas, as duas iniciais - essencialmente veloz, com movimentações constantes com e sem bola - implicam numa postura tática até certo ponto contrária à idéia principal do padrão de jogo. Há muita movimentação e, por conseqüência, há necessidade de se criar espaços. Fica difícil repetir o combinado. Nessa direção, quanto mais livre e imprevisível a equipe jogar maior a probabilidade de envolver e ludibriar o adversário. A meu juízo, nessa conjuntura os elementos que fazem a diferença são: a base de conhecimento tático, a qualidade técnica e atitudes do jogador.
Quem pode jogar livre? Quem tem uma sólida formação técnico-tática. Quem construiu uma base diversificada de conhecimento em futsal. Quem foi bem treinado. Em última análise, o "jogo livre" é a herança do jogador de futsal bem treinado.
Por conseguinte, penso que os padrões de jogo, que fizeram a diferença no final da década de 80 e início de 90, caminham para o ostracismo. As equipes que se movimentarem apostando apenas no preestabelecido poderão ser facilmente monitoradas. E, uma vez controladas, como obterão o êxito ofensivo? Como surpreenderão os adversários?
A narrativa acima sinaliza para o conceito de que é muito mais difícil monitorar equipes imprevisíveis e criativas do que padronizadas. Mas, o que seria jogar imprevisível e criativamente? A meu ver, movimentar-se na quadra adequada e inteligentemente. Em outras palavras, implica em saber abrir e ocupar espaços, se posicionar corretamente e cumprir os princípios do jogo de ataque - sair do campo visual do marcador, entrar na bola, projetar-se sem bola, acelerar o passe...
Não estou aqui fazendo uma apologia ao jogo de ataque livre. Apenas procuro entender o jogo ofensivo de boa parte das melhores equipes de futsal do Brasil. No jogo livre as equipes se posicionam corretamente, encaixam manobras e andam (se movimentam). Mas, não padronizam os deslocamentos.
De outro lado, em se tratando ainda de jogo de ataque, as bolas paradas - saída de bola, arremesso de meta, lateral, de canto e faltas - predominantes no futsal, estão aí para ratificar a eficiência de apostar no combinado. Com a bola em jogo, com a condição física que o treinamento desportivo propicia aos atletas, penso ser cada vez mais difícil e duvidoso, padronizar isso e aquilo. Penso que uma boa estratégia é investir no jogo livre e organizado.
E os padrões de jogo, ainda seriam oportunos? Sim. Para quem? A meu ver, para quem ainda não sabe jogar livre. Ainda que pareça paradoxal, os diferentes padrões de jogo são conteúdos que os jogadores devem aprender para que um dia possam "jogar livre". Por que? Porque os padrões ensinam a se movimentar na quadra adequada e inteligentemente.
Penso que caminhamos para um novo conceito em futsal: sai o jogo padronizado e entra o jogo livre e organizado. Esse, um jogo de inteligência tática e de atitudes.
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(1) Alguns autores tratam do tema: Ricardo Lucena, em Futsal e a Iniciação, Sprint, 1994; Michel Saad, em Futsal, iniciação técnica e tática - Sugestões para Organizar a sua Equipe, Editora da UFSM, 1997; Nicollino Bello Junior, em A Ciência do Esporte Aplicada no Futsal, Sprint, 1998; Daniel Mutti, em Futsal: da Iniciação ao Alto Nível, 1999.
(2) O professor Michel Saad no seu livro Futsal, Iniciação Técnica e Tática, aborda as Características Gerais do Futsal, pp. 42-44
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