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| Wilton Santana |
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Professores e Pais no Contexto da Iniciação ao Futsal
Escolhi duas lembranças, entre outras tantas, para iniciar este texto que fala de professores, de pais e de iniciação ao futsal.
A primeira é a seguinte: lembro-me de um professor da minha época de graduação dizer que, em se tratando de iniciação esportiva, os professores deveriam proibir os pais de assistir aos treinos. Isso porque esses, por conta de não entenderem de pedagogia do esporte, mais atrapalhariam do que o contrário.
A segunda lembrança é mais recente. É de um documentário sobre iniciação esportiva. Neste, aparece uma cena de um treino de beisebol infantil com crianças jogando, um grupo de pais torcendo e o técnico. Num determinado momento, um entrevistador se aproxima deste e pergunta: "Como você se sente com o comportamento dos pais?" . Ele responde: "Nada. Para mim eles não estão ali".
Infiro das lembranças descritas que o meu ex-professor e o técnico americano consideram negativa a participação dos pais na iniciação esportiva. De minha parte, não estou interessado em julgá-los, mas em ponderar sobre a difícil relação entre professores e pais.
Defenderei a idéia de que muito da incompatibilidade e da compatibilidade entre ambos é conseqüência do que pensam e querem para a criança. Por outra: o que motiva os pais a manterem os filhos numa escola de esporte? Eu não sei. Ainda que seja complexo responder, suponho algumas coisas: por acharem que o esporte faz bem para a saúde, ou para que o filho se torne um jogador profissional, ou para que se divirta, ou para que faça amizades, ou para que, um dia, seja o jogador que o pai não foi, ou para que seja o jogador que o pai foi, ou várias dessas e de outras coisas. O que motiva o professor a dar aula numa escola de esporte? Eu também não sei. Pode ser por gostar de criança, pode ser por gostar do tipo de esporte (futsal, basquete...) e de criança, pode ser para realizar o objetivo de ser técnico profissional, pode ser para realizar-se como educador, pode ser para ganhar uns trocados, pode ser para ganhar prestígio ou muitas dessas e de outras coisas ao mesmo tempo.
Logo, o jeito de o professor pensar o ensino do esporte, o jeito de o pai pensar o aprendizado do filho, a maneira de o professor ensinar, a maneira de o pai agir e o jeito de ambos interagirem com as nuances que a iniciação esportiva encerra (como, por exemplo, a aula, a competição, o desempenho, a vitória, a derrota) sinalizam para a qualidade das relações estabelecidas.
É fato: se o método do professor atender à expectativa dos pais, a relação entre ambos tenderá à cordialidade. A recíproca é verdadeira. Caso os pais mantenham os filhos no esporte para que eles, além de aprender, por exemplo, futsal, se divirtam e participem de jogos em geral, e o método do professor der conta disso, a probabilidade de surgir problemas é menor. O contrário sinaliza para intempéries. Repete-se o raciocínio em caso de os pais manterem os filhos no esporte para que eles aprendam futsal, vençam os jogos, sejam titulares e campeões, e o método do professor atender ou não à demanda.
Parece-me que o "choque" se dá quando ambos pensam coisas diferentes e agem diferentemente para dar conta das suas idéias. O que fazer quando isso acontece? Esse é o ponto que me interessa. Para o meu professor de graduação: vetar os pais de assistir aos treinos. Para o técnico americano de beisebol infantil: ignorá-los. Seriam essas as melhores atitudes pedagógicas? O que esperar dos pais se os professores forem assim tão truculentos?
A meu ver, o que se pode fazer é investir num regulamento, no diálogo, na aproximação, em reuniões periódicas e em avaliações. Coloquei o regulamento em primeiro plano por conta de acreditar que esse pode gerar uma pauta mínima de temas para discussões e de outros que não são negociáveis.
Em geral, os professores esperam que os pais sejam equilibrados. Ser "equilibrado", entre outras coisas, pode significar o fato de os pais permitirem aos professores gerirem as aulas e o comportamento da equipe quando da participação em competições, a dialogar com o filho, a ouvi-los, a incentivá-los, a manter uma atitude respeitosa para com os árbitros e os pais das outras equipes. Isso exige, por reciprocidade, que os professores ajam em consonância com essas idéias. Caso contrário, como cobrar qualquer coisa dos pais?
Por conseguinte, penso que não se consegue resolver os possíveis inconvenientes entre professores e pais afastando estes. Proibir os pais de assistir os treinos ou ignorá-los é sinal de incompetência pedagógica. Para o professor Olímpio COELHO (1988, p.41), no seu livro Pedagogia do desporto, isso pode ser "[...] um sinal negativo de uma sociedade que perdeu (ou nunca ganhou?) a perspectiva correcta sobre o significado do desporto para crianças e jovens".
Para que os pais respeitem os professores, dialoguem com o filho, ouçam ambos e ponderem sobre as nuances da iniciação esportiva (que é o que todo professor de esporte quer) é preciso que os professores se façam respeitar, o que perpassa, entre outras coisas, estabelecer certas diretrizes pedagógicas, dialogar com os pais e com as crianças, ouvi-los e ponderar sobre as nuances da iniciação esportiva. Exige-se, portanto, reciprocidade.
Como eu não sei o que pensam e querem os pais e os professores, direi que o irredutível em se tratando de iniciação esportiva (ou de escola formal, de teatro, de música, do que for) é, sobretudo, pensar e querer para a criança um tipo de pedagogia que ensine a viver melhor em sociedade. |
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