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| Wilton Santana |
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A Difícil Tarefa de Ensinar Esporte
Tenho discutido com os meus alunos de graduação como ensinar esporte. É um dos poucos temas de interesse da maior parte. Entre outras atitudes, discutimos a de parte dos professores de educação física de ensinar esporte (na escola ou no clube) mediante as famigeradas séries de exercícios(1). Nessas conversas, entre outras, ponderamos sobre os possíveis motivos que levam os professores a ensinar por esse viés. Eu e os meus alunos achamos que isso pode estar relacionado a vários fatores, como os fatos (a) de os professores não acreditem que as brincadeiras e os jogos ensinam(2); (b) de o curso de educação física ter centrado o ensino do esporte na técnica (logo seria uma herança do que se aprendeu na Universidade); (c) de terem dificuldade (ou receio) de justificar para parte dos pais de alunos a escolha por um outro método (os que conhecem outros) isso porque boa parte das pessoas adultas, equivocadamente, associa brincadeira à algazarra, alegria à falta de seriedade e esta à perda de tempo. Por conseguinte, se as crianças brincarem na aula disso ou daquilo e os pais crerem que isso não ensina a jogar, os professores poderão ser inquiridos sobre tal procedimento e, caso não saibam argumentar, poderão, até mesmo, perder alunos; (d) de ainda que a Universidade possa ter dado conta de ensinar diferentes métodos, tratar-se de uma escolha, de uma opção metodológica.
Penso que os fatores descritos explicam em parte a ausência, nas aulas, de jogos e brincadeiras, atividades tão queridas pelas crianças e cheias de significado (de relação com a sua realidade concreta) e a presença dos exercícios. Não quero dizer com isso que estes nada ensinam. Executá-los garantirá, sem dúvida, boa execução técnica. Minha resistência se dá por saber que criança que aprende a passar e a chutar, por exemplo, fica boa nisso e não, necessariamente, em jogar (as habilidades técnicas estão no jogo, mas jogar exige muito mais que isso); pelo fato de ser pouco interessante; pelo fato de não investir em autonomia... Então, se o futsal ou o basquete fossem uma exibição, como o balé, ou um esporte como a GR, em que não há confronto e a deficiência técnica faz o praticante, a cada erro, perder pontos, talvez fizesse sentido, desde cedo, aperfeiçoar o gesto desportivo segundo um modelo (digo isso porque penso que desde cedo, na presença ou não dos professores, as crianças aprimoram os seus gestos!). Mas como se tratam de jogos de cooperação e oposição, de confronto, centrar o ensino na repetição de movimentos (mediante os exercícios) pode fazer com que as crianças percam em inteligência, em autonomia, em motivação e em criatividade pressupostos para se jogar bem o que quer que seja.
Outra evidência pedagógica muito pouco debatida é o pensamento redutor. Neste caso, fica-se refém da tríade regras-técnica-tática. Evidentemente que esta deve ser levada em consideração quando do ensino do esporte, mas entender disso, ainda que condição necessária, não é suficiente para ensinar bem! Muitos elementos inter-relacionam-se para se dar uma aula (concepções, princípios, objetivos, conteúdos, métodos, procedimentos, a experiência de vida e as características da criança, o contexto sócio-cultural, os critérios mínimos de avaliação). Logo, não se deve dar aula e ignorar a complexidade disso.
Como eu não quero ficar em cima do muro, falarei de algumas coisas que sinto, penso e faço. Começo por uma regra básica: quem ensina deve respeitar o aprendiz, isto é, o que ele já sabe fazer, seu nicho, o que gosta de fazer, suas características. Esse conjunto de fatores tende a garantir uma boa pedagogia. Outro ponto: a par disso, caberá ao professor, entre outras coisas, investir nas relações da criança com o que se pretende conhecer (mais sobre percepção tática, mais sobre as habilidades, mais sobre sentimentos, mais sobre moral, mais sobre autonomia...), de modo a planejar a sua ação, permiti-la agir segundo suas possibilidades, desafiá-la, motivá-la (Piaget diria que a afetividade é o combustível da inteligência!).
Não defenderei a idéia de que a criança deve aprender esse ou aquele conteúdo porque se encontra nessa ou naquela idade (10 crianças de 10 anos de idade são semelhantes, mas, por conta de suas histórias de vida, diferentes!), mas que se deve levar em consideração o que se sabe em geral sobre o desenvolvimento infantil. Logo, quando do ensino, é preciso considerar tanto o que se sabe sobre a criança (nos livros) como o que esses não trazem (a sua experiência de vida, o seu jeito de ser e o contexto em que está inserida). Isso tem o intuito de facilitar ao professor planejar e à criança agir, aprender o que não sabe, sentir-se segura para criar novidades.
Por último, quando do ensino, o que é melhor: perguntar, sugerir, oferecer pistas, explicar, demonstrar, jogar junto? Depende do momento. Depende do grupo. Depende da criança. O que se pode discutir é que quanto mais se pergunta, se sugere e se dão pistas, mais se estimula a pensar e menos a copiar. Isso ratifica o compromisso político do professor com a criança, pois, ainda que ele a acompanhe, pretende que ela caminhe com as próprias pernas, que exerça sua criatividade. Isso tem a ver com respeito mútuo (o professor não idealiza a criança, mas lhe reconhece a individualidade, lhe respeita) e também com a construção de uma atitude autônoma. De outro lado, quanto mais se insiste num modelo, menos se cria. Corre-se o risco de se criar estereótipos e estes afrontam a inteligência e a autonomia de quem aprende. E isso é muito reducionista, pois a educação acaba sendo de movimentos e não de pessoas que se movimentam. Sobre jogar junto com as crianças, há quem pense que isso implica em lhe oferecer modelos de comportamento. Que bobagem! Jogar junto significa faça comigo e não faça como eu! Quem pensa assim é porque nunca teve o prazer de jogar com gente mais velha e, por isso, mais admirada. Jogar junto com quem a gente admira dá uma sensação de amor e temor (algo que tem a ver, também, com respeito). Crianças aprendem muito com os mais velhos (basta ver aquelas que jogam entre estes!), esforçando-se para acompanhá-los, empenhando-se em não cair diante de seus olhos (em não decepcioná-los), seguindo suas dicas e conselhos, também procurando copiá-los, imitando-os. Lembro-me de quando (ao lado de garotos como eu) fiz os meus únicos treinos com Zico (este, quando retornava de lesões, treinava entre os juniores!). Procurei dar o melhor de mim. Ele agiu como um mestre: apareceu para jogar, tocou a bola, orientou a todos. Um professor entre os alunos. Enfim, ensinar percorre muitos caminhos.
Penso que o que eu escrevi neste texto pode contribuir com quem se propuser a ensinar bem os esportes coletivos na infância. Ensinar bem, como se vê, não é assim tão fácil. Exigirá do professor, além de estudo, sensibilidade, experiência, habilidade.
- - -
(1) Há, inclusive, um estudo de um ex-aluno do nosso curso de pós em futsal, Fabiano Soares Pinto, que em sua monografia ratificou o fato de os professores ensinarem futsal para crianças de 7 e 8 anos, preponderantemente, por séries de exercícios. Estes treinam a habilidade sem estabelecer uma relação direta com o jogo. A idéia é de que primeiro se deve aprender a executar as habilidades, para depois jogar. Por detrás dessa prática, está o princípio analítico-sintético de ensino dos esportes coletivos, que é esmiuçado por Dietrich et al (1984), no livro "Os grandes jogos: metodologia e prática", Editora Ao Livro Técnico.
(2) Há uma ótima dissertação de mestrado, do professor José Alcides Scaglia, intitulada "O futebol que se aprende e o futebol que se ensina", UNICAMP (2000), na qual o autor desvela, entre outras coisas, a crença de ex-profissionais de futebol (hoje professores de escolinhas) de que as brincadeiras não ensinam, ainda que na infância de cada um desses professores elas tenham sido o principal veículo de aprendizagem. |
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