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| Wilton Santana |
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Capacidade de jogo
Certa vez, num curso de especialização em Santo André (SP), uma aluna afirmou que se Pelé jogasse hoje jamais faria o que Ronaldo, o fenômeno, faz (fez!). Perguntei-lhe, já que era muito nova, se assistira a lances do Pelé. Disse-me que não. Perguntei-lhe como podia, então, estabelecer a comparação. Disse-me que acreditava no que um amigo lhe falara (!). Sugeri então que assistisse o documentário “Pelé eterno” e tirasse suas próprias conclusões. Ainda assim insistiu que Pelé não faria o que Ronaldo faz em função de, hoje, ser mais difícil jogar. Perguntei-lhe o motivo. Disse-me que os jogadores atuais são mais bem preparados fisicamente, o que daria a Pelé menos espaço e liberdade. Perguntei-lhe se a boa condição física dos jogadores de hoje seria páreo para a inteligência e a malícia de Pelé; se para jogar basta correr; se sabia que Pelé, sem toda a tecnologia atual, tinha um excelente preparo físico etc. Não me lembro de suas respostas, mas o diálogo foi instigante e respeitoso.
Isso me fez pensar no que é imperativo ensinar/treinar para que o jogador de esporte coletivo atue bem. O que fez de Edson, Pelé? O que fez de Ronaldo, o fenômeno? O que faz Ronaldinho Gaúcho ser o melhor do mundo? Certamente as suas histórias de vida, se reveladas, à medida que mostrassem aspectos culturais, elucidariam muito disso. Mas aqui não é foro para isso. Contentar-me-ei em ponderar sobre o que a pedagogia do esporte deve fomentar, desde cedo, para que se aprenda bem futebol, futsal, basquetebol...
"Ao acreditar que treino bom é o que capacita o jogador para o jogo, então é a capacidade de jogo o que precisamos desenvolver em nossos jogadores. É isso o que Pelé tinha e os craques de hoje têm”.
Vejamos duas teses. Por um lado, há a pedagogia tradicional, que aposta na idéia de que a técnica (o gesto) deve ocupar o centro das preocupações dos treinadores de crianças. Por conseguinte, investe-se, desde cedo, na sua aquisição e aprimoramento. Tem muitos adeptos. Os maiores cabos eleitorais dessa pedagogia são boa parte das faculdades de educação física, que ensina seus alunos, futuros professores, a burocratizar o ensino do futebol, abolindo das aulas a brincadeira, o clima de liberdade, a criatividade e o desafio (ingredientes, para o João Freire, que ensinaram bem futebol a gerações de craques brasileiros) em nome dos conhecidos exercícios de repetição e memorização. Por outro lado, citaria a pedagogia não-tradicional (sempre é difícil dar nome para as coisas sem cair em armadilhas teóricas!) ou métodos ativos (em adotando o referencial de Claude Bayer). Em linhas gerais, em função da imprevisibilidade e aleatoriedade do jogo (que exige um jogador “flexível” ao contrário de “formatado”), esse tipo de pedagogia reivindica que a dimensão cognitiva (a inteligência), a iniciativa e o próprio jogo ocupem o centro das preocupações dos professores que ensinam esporte.
Inclino-me, evidentemente, para a segunda tese, que defende a idéia de que jogar se aprende jogando. Isso porque me parece adequado que a pedagogia do esporte se dedique à produção e não à reprodução; de que é preciso planejar aulas/treinos que levem o jogador a se deparar com os problemas do jogo. Ora, no jogo coletivo, as diferentes dimensões que sustentam o desempenho do jogador se afetam constantemente! Quer isso dizer que o jogador que antevê a oportunidade de receber a bola (tático-cognitiva) e corre para chutá-la (técnica-coordenativa), é o mesmo jogador que resiste à fadiga (condicional-física) e que lida com as pressões da competição (emocional). Logo, o ensino deveria, desde cedo, sempre que possível, integrar as dimensões; desenvolvê-las em teia. Tal como no jogo, o treino deveria ser um complexo de ações integradas.
Ao acreditar que treino bom é o que capacita o jogador para o jogo, então é a capacidade de jogo o que precisamos desenvolver em nossos jogadores. É isso que Pelé tinha e que os craques de hoje têm. Mas o que seria isso? Eu já a expliquei. Ao meu modo. Mas julgo oportuno ler como o professor Greco (1998, p.59) a caracteriza: trata-se da “[...] interação do desenvolvimento das diferentes capacidades que compõem o rendimento esportivo em uma situação de jogo”.
Por último, diria que tão relevante quanto saber o que é capacidade de jogo é o conhecimento de como treiná-la/desenvolvê-la, independentemente se em criança ou em adulto. Como se consegue isso? Recorro, novamente, ao Greco (1998, p.59), para quem a capacidade de jogo é desenvolvida a partir da “[...] prática de situações de jogo típicas e comuns ao próprio jogo”.
Referências
Bayer C (1994). O ensino dos desportos colectivos. Lisboa, Dinalivro.
Freire JB (2003). Pedagogia do futebol. Campinas, Autores Associados.
Greco PJ (1998). Da capacidade de jogo ao treinamento tático. In: Greco PJ (org.). Iniciação esportiva universal 2. Belo Horizonte, Editora da UFMG, p.57-75.
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