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| Wilton Santana |
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A relação com a bola
Quando o jogador é habilidoso, dizemos que os seus movimentos são carregados de eficiência, isto é, são polidos, sem excesso. Em se tratando de futsal ser habilidoso implica em apresentar destreza em gestos (habilidades) como o domínio, a condução, o controle, o chute, o cabeceio, o passe, a proteção de bola e outros. Por conseguinte, jogar bem, entre outras coisas, tem a ver com o modo que as crianças se relacionam com a bola, pois aquelas habilidades são exigidas quando se joga. Opa! Não demorou a aparecer o jogo. É que o futsal, um esporte jogado entre companheiros e adversários, implica em competição, em disputa. Então atenção: é assim que a intimidade com a bola será exigida. O gesto, apenas para ser exibido, dissociado do contexto de jogo, sem objetivo de levar vantagem sobre o adversário, sem se adaptar às circunstâncias e à aleatoriedade do jogo, não vale nada em futsal. Esta é a mudança paradigmática do gesto em se tratando de esporte coletivo: ele vale apenas se associado à intenção do jogador; se for compreendido de forma relativa.
“Esta é a mudança paradigmática do gesto em se tratando de esporte coletivo: ele vale apenas se associado à intenção do jogador”.
A boa relação com a bola, associada às habilidades de perceber e analisar o jogo, de decidir bem, de se controlar emocionalmente, de perseverar, de se concentrar, de resistir à fadiga, de exercer velocidade e força, de antever, garantem jogar bem. Não se pode perder de vista que são vários os fatores que contribuem para que se jogue bem e não, exclusivamente, a relação com a bola. É a intercomunicação desses fatores durante a disputa, que leva o nome de capacidade de jogo, que faz com que se possa jogar bem futsal.
Penso que, desde cedo, o professor deve fomentar pedagogia para que os seus alunos melhorem a relação com a bola. Uma dica é planejar as atividades considerando as experiências anteriores da criança (o que ela já sabe). Para tanto, basta observá-las jogando. A pedagogia investe nas relações da criança com o que se pretende ensinar (passar para alguém, chutar a gol, tomar a bola de alguém, driblar alguém, aparecer para receber a bola...). Da interação da criança com a bola, o adversário, o espaço, as regras, os conflitos, resultará o futebol de cada um!
O professor, ao contrário de deixar que a criança aprenda naturalmente, como na rua, mediará como ela conquistará o conhecimento (aprenderá): planejará a aula, proporá atividades compatíveis (ao alcance), provocará reflexões sobre a prática, sensibilizará o aluno; ficará próximo quando a criança age, dará dicas, aumentará ou diminuirá a complexidade do problema a ser resolvido. Mas não acelerará respostas, o que não significa que deixará de orientar movimentos com algum tipo de conhecimento (informação) que ajude o aluno.
O bom professor sabe que as crianças são diferentes e que praticarão futebol dentro de seus estilos próprios, segundo suas possibilidades. Ninguém chutará ou passará do mesmo jeito que o colega ou segundo o ensinamento de determinado autor. Logo, não exige que as crianças façam as coisas apenas de um jeito, inibindo a capacidade de interpretar e de inventar. O bom professor sabe que as experiências anteriores de cada criança, o seu estágio de desenvolvimento cognitivo-motor, o seu estágio de aprendizagem motora, o ambiente e a qualidade das relações estabelecidas neste - entre pessoas, entre pessoas e objetos, entre pessoas e professor - determinarão, em grande parte, suas possibilidades de aprendizagem.
A criança, orientada pelo professor, buscará nas atividades motoras a sua melhor maneira de praticar futebol. Às crianças deve ser permitido aprender aos poucos, sem pressa, com alegria, com orientações. O método de ensino deve atentar, entre outras coisas, para esses pressupostos.
Se a narrativa acima é verdadeira, diria que um bom relacionamento com a bola se constitui num objetivo para a criança. Isso facilitará a expressão do seu jogo (o que lhe dará prazer). A meu juízo, uma vez que jogar não é apenas uma atividade corporal, facilitará também a expressão de suas vontades, de seus desejos e de suas necessidades (não é o meu corpo quem joga, mas eu quem jogo!). Desse ponto de vista, a relação com a bola em situação de jogo vai além do aspecto técnico-tático, tornando-se um facilitador sócio-afetivo e moral.
Do contrário, vejamos. Como uma criança poderá atender ao seu desejo de fazer e comemorar gols, se não joga? Como aprender a jogar junto e contra, se a maior parte da aula exige que ela faça tudo sozinha? Aí está, novamente, a mensagem deste texto: é preciso ensinar a criança a se relacionar com a bola num contexto de jogo, isto é, o gesto na interface com o colega, com o adversário, com o espaço de jogo, com as regras.
Para a criança, infiro, há uma relação estreita entre jogar e aprender, participar e ser feliz. Portanto, mais do que um objetivo é um dever do professor facilitar às crianças a apropriação do conhecimento de se relacionar bem com a bola em situação de jogo. Planejar e bem o ensino disso pode garantir um presente fecundo à criança. Quanto ao futuro é uma outra história.
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