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| Wilton Santana |
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Iniciação esportiva com "sabor" futsal
Em muitas realidades as aulas de esporte na infância são muito especializadas. Vários estudos diagnosticaram isso. Significa dizer que se ensina muito sobre pouco, ou seja, investe-se muito tempo na repetição dos gestos específicos (relação com a bola e informações sobre como melhor fazer isso, que é a técnica), nos posicionamentos unilaterais em quadra (no caso do futsal, a ocupar a posição de goleiro, ou fixo, ou ala ou pivô), na repetição das manobras de bola parada (saídas de meta, arremessos laterais, faltas e arremessos de canto). Isso é pouco para quem está numa fase da vida em que a diversificação deveria ser o princípio e o método. Aula (ou treino) de criança não deve assemelhar-se ao treino de adolescente e de adulto! Ora, antes de treinar as crianças devem aprender a jogar!
Se o professor tiver como eixo norteador a competição, isto é, o resultado da equipe nos jogos, a iniciação tenderá a ser ainda mais especializada, pois o desempenho da equipe determinará o tipo de treino. Isso é equivocado, pois o método não pode submeter-se à competição (aos jogos com outras equipes). O método deve adaptar-se à criança, isto é, levar em consideração suas possibilidades; encontrar-se com os seus interesses mais íntimos, de modo que aprender faça sentido. A competição serviria para algo? Sim. Desde que não seja excessiva, prestar-se-ia como fator motivacional e também para ensinar a cooperar (atuar junto), para estabelecer alguns limites e transpor outros, para testar habilidades. Portanto, jamais deveria, isoladamente, determinar o conteúdo do próximo treino.
“Então entrará aquilo que chamo de iniciação esportiva com ‘sabor’ futsal. É isso mesmo: os pais põem seus filhos para aprender futsal e nós ensinamos mais que isso. Será isso ou teremos de rasgar nossos diplomas de graduados ou licenciados (ou as duas coisas) em Educação Física”.
A aprendizagem esportiva de crianças está ancorada no crescimento, na maturação, na experiência de vida e na ética e não no resultado de um jogo. Assim sendo, não dá para desprezar fatores biológicos, culturais e morais quando se ensina. Se isso ocorrer, o processo de ensino do futsal caracterizar-se-á num quadro pouco promissor: a seletividade, o empobrecimento de experiências de movimento e de atitudes cooperativas, a especialização da posição tática e de gestos motores, o ensino de técnicas.
No lugar da especialização esportiva precoce, isto é, do treinamento intensivo de um único tipo de esporte antes da puberdade e excessivamente competitivo, no qual algumas crianças de melhor condição física e motora se destacam e participam mais do que outras, os professores deveriam priorizar a diversificação de movimentos, relativizar os resultados nos jogos, enfatizar o aprendizado sócio-moral, oferecer oportunidades de desenvolvimento a todos. Mas como fazer isso se as crianças se inscrevem numa escola de futsal e não de iniciação esportiva? Afinal, não seria exatamente para aprender mais sobre futsal que as crianças procuram esses programas? Sim. Porém os professores sabem que é muito cedo para especializar, que o ápice esportivo em esportes de quadra ocorre, segundo pesquisadores, entre 22-23 e 27-28 anos, e que o processo de treino deve ser, nessa fase, multifacetado (diversificado). Então entrará aquilo que chamo de “iniciação esportiva com ‘sabor’ futsal”. É isso mesmo: os pais põem seus filhos para aprender futsal e nós ensinamos mais que isso. Será isso ou teremos de rasgar nossos diplomas de graduados ou licenciados (ou as duas coisas) em Educação Física.
Penso que professores não podem associar-se a idéias falsas. Não estudamos para ficar reféns de pais ou de dirigentes de clubes e/ou escolares reféns de pais. Estudamos para ampliar as possibilidades da criança de atuar em sociedade que, em alguns casos, inclui preservá-las de idiossincrasias paternais e clubistas. Quanto mais nova a criança, mais o conceito da diversificação deve ser sustentado. À medida que crescerem e se desenvolverem, o tempo destinado ao aprendizado de futsal aumentará na aula.
Mas como isso se consolida? Primeiro, exige-se uma mudança interior do professor, isto é, ele precisará transformar-se de dentro para fora. Isso se consegue, entre outras coisas, mudando paradigmas que, por sua vez, exige, entre outras coisas, estudar, que exige, entre outras coisas, estar insatisfeito com o que se pensa, sente e faz. É preciso substituir o velho conhecimento e a velha crença por um novo conhecimento e uma nova crença. Quem estiver descontente com o que sabe está mais próximo disso. Quem estiver satisfeito com o que faz está cada vez mais longe disso. Depois, é preciso colocar em prática a nova crença e isso passa por destinar um bom tempo da aula a atividades que exijam das crianças coordenarem e vivenciar movimentos diversificados associados ou não aos gestos específicos do futsal.
Como saber se o que se faz está certo? A meu ver, alicerçado em alguns autores, diria que um caminho promissor seria dar aulas que estimulassem as crianças a desenvolver capacidades, como, por exemplo, reagir rápido a um estímulo, equilibrar-se, resistir a esforços moderados, alongar-se, fortalecer tendões e ligamentos, acompanhar e antecipar deslocamentos de objetos, distribuir atenção nas tarefas, resolver problemas, manipular diferentes objetos, relacionar-se com diferentes bolas, jogar coletivamente, manter e recuperar a bola, ocupar diferentes espaços de jogo, compreender suas atitudes, expressar seus sentimentos, comprometer-se, opinar, dialogar. O veículo pedagógico promissor seria o jogo (a brincadeira).
Aulas de futsal dos 06 aos 09-11 anos têm mais diversidade do que especificidade; é a diversificação na especialização. Atenção ao que eu disse: há mais que futsal (o que inclui futsal). Essa relação tende a diminuir paulatinamente dos 12 anos para frente, isto é, o treino será tanto menos diversificado quanto mais se avança na idade, até chegar um momento, a partir dos 14-15 anos em que a especialização será o princípio e o método. Aprender-se-á mais sobre pouco.
Alguém poderia questionar se as crianças ao se inscreverem em programas de iniciação ao futsal que educam pela ótica expressada neste texto, em função de encontrar o princípio da diversificação, desistiriam de freqüentar as aulas. A minha experiência diz que não. É isso o que oferecemos às crianças faz um longo tempo e vem daí (da prática) a nossa convicção pedagógica. |
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