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| Wilton Santana |
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A delícia e a dor do futebol brasileiro
Não é novidade que o brasileiro é apaixonado por futebol. Este entra na vida de uma boa parte das pessoas ainda na infância. O pai dá para o filho ou filha o nome e o time para torcer. A gente cresce praticando, assistindo e consumindo futebol. O país pára para assistir à Copa. A seleção brasileira é um pouco da gente. O futebol, portanto, faz parte da nossa maneira de ser, da nossa identidade cultural.
Sob olhar antropológico, Jocimar Daolio, um autor conhecido da educação física brasileira, explica que o futebol encontrou na sociedade brasileira um campo fértil para se desenvolver, estabelecendo conosco uma feliz parceria. Quer isso dizer que o futebol, uma invenção inglesa e, por isso, muito conservador, “frio”, encontrou por aqui a alegria, a malícia e a “boa” malandragem de que precisava para se transformar em arte, em espetáculo, em beleza. Roberto DaMatta, grande antropólogo brasileiro, sustenta que o futebol tem o poder de unir as pessoas em torno de algo comum, de lhes suscitar o sentimento e a atitude de nação, algo que não se vê noutros campos, como por exemplo, o político.
“Diria que o futebol não é em si violento ou pacífico, astuto ou ingênuo, dissimulado ou transparente, desonesto ou justo, imoral ou moral (...) tudo depende de quem está por detrás dele”.
Parte da arte do futebol é traduzida pelos dribles de Garrincha, pela genialidade de Pelé, pelos gols de Leônidas, Zico, Romário e Ronaldo, pela elegância de Nilton Santos, Didi e Falcão, pela antevisão de Gérson e Sócrates, pela inventividade de Tostão, Rivelino e Ronaldinho Gaúcho. Portanto, quando penso em futebol sobressaem algumas belas partidas que assisti e que me emocionaram, a habilidade dos craques, os gols que fiz e comemorei e, sobretudo, àquilo que o futebol representa para grande parte das crianças brasileiras: uma prática lúdica; uma grande brincadeira.
Entretanto, esse mesmo futebol, alçado pelos brasileiros à categoria de arte, aclamado pelo público mundial e idolatrado pelas crianças tem, ao longo do tempo e infelizmente, tomado formas nefastas de se manifestar. Basta lembrar a imoralidade de parte dos árbitros e de canalhas que insistem em acertar resultados de jogos, lhe roubando a tensão e a incerteza, duas das suas principais características; as atitudes de alguns dirigentes que o usam como trampolim político, afrontando a nossa inteligência e se aproveitando da paixão popular dos torcedores para enriquecer ilicitamente; a incompetência e inércia de alguns dirigentes e de autoridades, que não asseguram às pessoas a devida segurança para freqüentarem os estádios de futebol; o comportamento destrutivo, excessivamente violento e marginal de alguns torcedores, muitos deles atrás de alguns segundos de fama.
As facetas do futebol convivem e se revelam antagônicas. Diria que o futebol não é em si violento ou pacífico, astuto ou ingênuo, dissimulado ou transparente, desonesto ou justo, imoral ou moral, destrutivo ou construtivo, mas sim que toma essas formas dependendo de quem está por detrás. As pessoas fazem o futebol. Este espelha o que somos.
Referências:
DaMatta R (2006). A bola corre mais que os homens. Rio de Janeiro: Rocco.
Daolio J (2003). Cultura, educação física e futebol. Campinas: Editora da Unicamp. |
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