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| Wilton Santana |
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Ensinar a cooperar: uma premissa para os treinadores de jovens
Phil Jackson expressou no seu livro Cestas Sagradas – Lições Espirituais de um Guerreiro das Quadras, leitura obrigatória para os técnicos de esportes coletivos que “A batalha pelas mentes dos jogadores começa bem cedo. Muitos jogadores talentosos começam a receber tratamento especial assim que iniciam o ginásio, e quando finalmente chegam ao profissionalismo, já receberam mais de oito anos de paparico”. Trata-se de uma influência psicológica que não pode ser desprezada na formação de um jogador.
O futsal é um esporte em potencial para um equívoco desse tipo. Basta lembrar que as crianças se iniciam, em alguns casos, aos cinco, seis anos de idade e em geral são acompanhadas pelos familiares, que representam a torcida nessa fase, por longo período. Além do “paparico”, parte da família é acusada de colocar muitas expectativas sobre os filhos, cobrando-os excessivamente por um rendimento elevado.
Não se trata de dizer que todos os pais atrapalham os filhos esportistas, mas apenas de alertar que ao lidarem com crianças, pais e treinadores deveriam dedicar especial atenção à vida emocional daquelas. Nesse sentido, ambos deveriam encorajá-las. Treinadores, além disso, têm a obrigação de orientá-las nessa caminhada que se inicia e também aos seus pais quanto ao comportamento indicado para acompanhar treinos e jogos.
Isso, sem dúvida, deveria ser fomentado, com afinco, nas categorias menores, o que, em potencial, deixaria uma herança promissora (...) Time é sistema. Exigirá, sempre, envolvimento, empenho, amizade. Sem isso não é time. É um bando de desencontrados.
O que me chama a atenção no discurso do Phil Jackson é a repercussão do paparico para o futuro do jogador, já que ele não tocou na questão da cobrança exagerada. De fato, não são poucas as vezes que os treinadores de alto rendimento têm dificuldade de lidar com o ego dos jogadores. Há os que assumem para si imagens de competência que não correspondem à realidade, outros almejam privilégios, outros não sabem lidar com críticas, há os que não sabem se engajar num projeto coletivo etc. Tudo isso seria amenizado se as experiências esportivas desses jogadores fossem permeadas por valores e atitudes cooperativos.
A minha preocupação faz sentido, pois, inegavelmente, quem não souber cooperar terá sérias dificuldades no esporte coletivo. A equipe somente será um time quando criar uma unidade, isto é, uma identidade coletiva. É a coletividade o que gera consistência. Nesse sentido, o jogador deve aprender com o técnico, desde cedo, a sentir, a pensar e a agir cooperativamente. É preciso aprender o quanto antes que num ambiente competitivo como o do futsal de rendimento elevado, a capacidade de cooperar faz a diferença. Isso, sem dúvida, deveria ser fomentado, com afinco, nas categorias menores, o que, em potencial, deixaria uma herança promissora.
Fica para o treinador de jovens (e de profissionais) a seguinte premissa: é preciso, primariamente, transformar um bando num time. Time é sistema. Neste, os elementos se afetam incondicional e permanentemente. Isso exigirá, sempre, envolvimento, interesse, empenho, integração, inter-relação, inclinação, afeto, amizade, amor, prazer. Sem isso não é sistema, não é equipe, não é time. É um bando de desencontrados.
No início do texto me reportei à torcida. Há um interessante artigo (http://www.fcdef.up.pt/rpcd/entrada.html) dos professores Fabrício Moreira e Gisele Schwartz. Eles entrevistaram 20 crianças (de 11 e 12 anos) inscritas numa escolinha de futebol. Entrevistaram-nas a fim de saber quais seriam seus sentimentos em relação à torcida familiar (composta, segundo 14 crianças, na maioria pelo pai). Leia o estudo (procure pelo vol.7, no 2 do periódico). Vou adiantar alguns dados: a maior parte dessas crianças gosta (17 crianças) e se sente motivada (17 crianças) com a presença da torcida em seus jogos. Porém, no caso de sofrer críticas, sente-se mal. A maior parte (11 crianças) acredita que a torcida influencia a sua maneira de jogar e as outras (9) dizem não “dar bola” para isso. Entretanto, essa influência pode significar, por um lado, algo positivo (poder melhorar) e por outro lado algo preocupante (abatimento).
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